De Leandro Iamin
Provavelmente eu era o único palmeirense presente no Parque São Jorge naquele 7 de junho de 2000. Horas antes Marcelinho perdera o pênalti que eliminara o alvinegro da Libertadores. Era dia de luto. Para eles, claro.
Meu primo jogava pelos juvenis do Timão. Eu, vizinho do clube alvinegro, o acompanhava. Naquela manhã eu queria gritar e abraçar palestrinos. Mas estava dentro do clube derrotado. É claro que não vou contar aqui as expressões, os vultos, os silêncios que vi, ouvi e senti lá dentro. Seria deselegante.
Nessa época, assistia muito os treinos do time profissional, campeão do mundo (haverá sempre a deliciosa controvérsia sobre isso, tem que ser assim, o Palmeiras foi barrado no baile e o assunto jamais acaba), esperando meu primo. Ficava perto dos jornalistas. Via o trabalho deles e adorava. Seis anos depois virei um deles.
Posso dizer que a profissão que escolhi foi, também, um pouco graças ao Corinthians.
Como devo dizer que, por morar em São Paulo, o Corinthians faz parte de minha biografia, mais do que eu posso supor. Este time é mesmo o avesso do avesso do avesso. A cidade também. Eles são maioria, alvo, vidraça, a história a se contar. Protagonistas dos outros mundos, antagonistas de si mesmos, masoquistas aos olhos distraídos.
Tinha 8 anos e estava no Morumbi em 12 de junho de 93, quando meu time venceu o deles e saiu da fila de 16 anos. Pouco depois estava no Pacaembu na final do Rio-S. Paulo. Campeão. Mais dezoito meses e assisti, no mesmo Pacaembu, diante do mesmo Corinthians, meu time levar o brasileirão.
E não eram fregueses, não soava assim. Eles cantavam mais que nós após o fim do jogo de 94. Cada vitória era um desabafo. Lembro de um amigo, o Gabriel. Palmeirense. Foi a um derby comigo nesse ano de 94. Deu Corinthians. Chegando na casa do Gabriel, haviam uns 10 corinthianos trepados em seu portão, o esperando chegar e cantando corinthianices. Gabriel foi detonado, sofreu o maior bullyng de sua vida.
Gabriel acabou virando corinthiano. O Corinthians pressiona. Atrapalha, não é conveniente. É mal educado, espaçoso.
Volte 20 anos. O Timão nada tinha além de títulos estaduais. Mas suas derrotas eram as mais lembradas, e eles tinham 77. Tinham o IV centenário, a quebra do jejum contra o Santos de Pelé, etc, etc, etc. E tinham invasão de Maracanã, democracia, torcida crescendo na fila, mais etcéteras. Eles não precisam do melhor argumento para ganhar uma discussão.
Muitas vezes acreditam demais nas próprias retóricas, a ponto de realmente o menos importante, ou o menos nobre, se tornar o essencial.
Vieram 5 estrelas na camisa. Um Dualib e algumas parcerias que não valeram a pena. Um
rebaixamento que quebrou, literalmente, a imagem de São Jorge. Ilusões do estádio que nunca sai, da Libertadores que nunca vem, de coisas que este time nunca precisou, mas que, de tanto tempo que sobra, parece necessário.
Porque o dia do Corinthians não tem 24 horas. É muito assunto pra pouco dia. É muito signo, muita mandinga, muita referência. Como gostam de dizer, muita mística.
Uma mística que realmente é capaz de ganhar jogos sofridos, aquela coisa do "tudo ser mais
difícil". Mas a mística corinthiana também é caótica. As maiores mazelas e derrotas do Timão são fruto, ironicamente, de parte de suas maiores virtudes.
Perdem a cabeça, a razão, os jogos, de tanto que amam. Possuem um ciclo orgânico em que destróem (ou humanizam, ou reinventam) os próprios mitos, ícones, lendas, ídolos. Sempre saem do estádio jurando que vão golear o próximo adversário. No fundo acham super charmosa essa coisa de não ter Libertadores.
Não tem lógica, e nem é pra ter. Corinthiano pobre e maloqueiro não tem urgência de virar rico. Corinthiano derrotado e molhado de chuva não tem urgência de ser campeão, finalista, líder.
Ok, boa parte das torcidas são assim em alguma escala. Mas são pouquíssimos no mundo que possuem tanta vocação para o protagonismo quanto o corinthiano.
Este palmeirense aplaude o centenário do Corinthians. O Coringão é o maior rival do meu Palestra. E é o time mais rejeitado do país atualmente. Acho que o Brasil tem inveja do Palmeiras. Todos gostariam de ser o principal rival deste alvinegro anormal.
Não é a maior torcida, nem o mais vencedor, nem o mais rico, mais velho, mais colorido.
Também não são os mais diferentes, afinal nada que seja diferentão atrai 30 milhões de seres.
Talvez eles sejam a melhor idéia, não sei.
Não sou corinthiano e esta resposta eu não tenho. Nem o corinthiano, apaixonado que é e ligeiramente míope por isso, tem. O que pode explicar um pouco, só um pouco, deste time.
Parabéns ao Corinthians. De coração.
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terça-feira, 31 de agosto de 2010
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Histórias de Love
O artilheiro do amor que acaba de voltar ao meu Palmeiras me emocionou. No dia da confirmação, confesso que caíram duas lágrimas, uma de cada olho, enquanto comia um pão matinal.
Lembrança com afeto de um tempo bom que vivi. Era meu primeiro ano como universitário, um momento de maturidade, descobertas, mas de Palmeiras na Segunda Divisão.
Fui a quase todos os jogos daquela campanha. Sempre sozinho. Ingressos a 5 reais comprados numa peixaria no Mercadão da Lapa. Protestos contra a diretoria, noites na rua, 2x7 pro Vitória em casa, discussão com Oberdan Cattani.
Seja lá como for, isso tudo foi gostoso e estava debruçado na arquibancada, no primeiro degrau, quando Vagner Love deu, de cabelo colorido, a volta olímpica com a Taça na mão.
A relação com Love é de carinho. No momento mais difícil, aquele menino deu folclore e qualidade, auto-estima e gols. Mas minha relação com Vagner Love vem de antes.
Meu primo se tornou jogador de futebol. Em 2002, ele era juvenil da Portuguesa. Fui ao Canindé vê-lo jogar. Palmeiras x Portuguesa. No jogo preliminar, feito pela categoria mais velha, Vagner estava no banco.
A Lusa foi pro intervalo vencendo, 1x0. Entrou o moleque, camisa 17. Em 15 minutos, ele marcou dois gols. 2x1. O time que tinha Alceu como capitão, tinha também um destaque no banco.
Alguns meses depois, veio a Copa São Paulo de Juniores. Eu passava férias em São José dos Campos, onde o Palmeiras jogou a primeira fase da competição, em 2003. Fui aos jogos, claro.
Na rodada final, era preciso ganhar por 5 gols para classificar. E Vagner não estava em campo. Ninguém no estádio podia supor o motivo do craque alviverde estar de fora. Nem no banco.
Chega o intervalo, e descubro que Vagner está, todo de preto, nas cadeiras do estádio. Vou até lá. Ele dá autógrafos para uns garotos. Eu não quero assinatura.
-Vagner, porque você não está jogando?
O atacante me olhou, fez cara de dor, colocou a mão na coxa, e sentenciou.
-Panturrilha, cara.
Mais tarde, chegando em casa, assisti perplexo o diretor de futebol Márcio Araújo contando a versão oficial da "contusão" de Vágner. Uma contusão que lhe deu o apelido eterno de Vágner Love.
Ele mentiu pra mim, mas gosto dele de verdade.
Lembrança com afeto de um tempo bom que vivi. Era meu primeiro ano como universitário, um momento de maturidade, descobertas, mas de Palmeiras na Segunda Divisão.
Fui a quase todos os jogos daquela campanha. Sempre sozinho. Ingressos a 5 reais comprados numa peixaria no Mercadão da Lapa. Protestos contra a diretoria, noites na rua, 2x7 pro Vitória em casa, discussão com Oberdan Cattani.
Seja lá como for, isso tudo foi gostoso e estava debruçado na arquibancada, no primeiro degrau, quando Vagner Love deu, de cabelo colorido, a volta olímpica com a Taça na mão.
A relação com Love é de carinho. No momento mais difícil, aquele menino deu folclore e qualidade, auto-estima e gols. Mas minha relação com Vagner Love vem de antes.
Meu primo se tornou jogador de futebol. Em 2002, ele era juvenil da Portuguesa. Fui ao Canindé vê-lo jogar. Palmeiras x Portuguesa. No jogo preliminar, feito pela categoria mais velha, Vagner estava no banco.
A Lusa foi pro intervalo vencendo, 1x0. Entrou o moleque, camisa 17. Em 15 minutos, ele marcou dois gols. 2x1. O time que tinha Alceu como capitão, tinha também um destaque no banco.
Alguns meses depois, veio a Copa São Paulo de Juniores. Eu passava férias em São José dos Campos, onde o Palmeiras jogou a primeira fase da competição, em 2003. Fui aos jogos, claro.
Na rodada final, era preciso ganhar por 5 gols para classificar. E Vagner não estava em campo. Ninguém no estádio podia supor o motivo do craque alviverde estar de fora. Nem no banco.
Chega o intervalo, e descubro que Vagner está, todo de preto, nas cadeiras do estádio. Vou até lá. Ele dá autógrafos para uns garotos. Eu não quero assinatura.
-Vagner, porque você não está jogando?
O atacante me olhou, fez cara de dor, colocou a mão na coxa, e sentenciou.
-Panturrilha, cara.
Mais tarde, chegando em casa, assisti perplexo o diretor de futebol Márcio Araújo contando a versão oficial da "contusão" de Vágner. Uma contusão que lhe deu o apelido eterno de Vágner Love.
Ele mentiu pra mim, mas gosto dele de verdade.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
O campo e o teatro
O futebol têm suas leis intangíveis, têm sua moral própria, interna.
Muitas vezes se assemelha com o mundo fora das 4 linhas. Algumas vezes é o contrário.
O Brasil possui, na várzea, um tesouro. Um dos únicos argumentos possíveis de quem defende ser o Brasil o "país do futebol".
Jogo na várzea toda semana, e preciso disso. Competir no campo, para não precisar competir em outros setores da vida.
Ter adversários lá dentro, pra redimensionar e relativizar os amigos e as relações fora dalí.
Meu time estava em uma crise braba. Muitas derrotas. E enfrentaria seu maior rival. Eu queria encontrar respostas.
Era o capitão. Deixei de ser. Usava uma camisa. Mudei de número. Era lateral. Fui pra zaga. 2° tempo: 0x3.
O time em conflito interno, xinga-se. Lance comum, e eu arranco da zaga. Quando vejo, passei os zagueiros deles, e recebo a bola. 1x3.
Caio de joelhos e choro. Pra mim, aquela arrancada e aquele gol já me eram uma resposta. Porque o futebol tem dessas mensagens dissociadas do sucesso.
O jogo, na lama deliciosa da várzea pós-chuva, fica tenso. Pancadas, provocações, e eu passo pra lateral, em virtude do arranque do 1° gol.
Um deles desaba. A bola vem pra mim. Não respeito o tal "fair play", vou pra cima da marcação. Recebo pontapé. O jogo pára para o atendimento, e para as ameaças.
Entre cotovelos e solas, bato mais boca e ganho um escanteio-com-solada. Vou pra área. A bola vem. Em dou passos pra trás e tomo um soco no rosto.
Ainda assim, sai o gol. Gol com soco. Confesso, não vi. Tive que revidar a agressão. Alguém me agarra e me lembra que está 2x3.
O jogo fica frenético desde então. Lance final. Escanteio. Eu corro e pego a bola para cobrar. Nunca cobrei um escanteio na minha vida.
Reclamam e me cobram pelo ato. Irredutível e irresponsável, eu cobro. E o gol de empate sai, de cabeça. Caio no barro, às lágrimas, enquanto ouço uma porção de espectadores cantarem meu nome.
Em qualquer outro lugar do mundo, eu ficaria triste, Frustrado, por tomar um soco, revidar, provocar, afrontar.
Mas, nos contextos de um jogo de futebol, o peso das coisas muda.
Não sou inimigo de quem me bateu. A briga lá dentro não é pessoal. "Pára de brigar porque foi gol" é o argumento que bastou. Pra um lado e pro outro.
Acabo de viver o jogo mais maluco que já joguei. A vitória não veio e isso não é importante. Meus gols e assistências também não me são o mais importante.
Importante, pra mim, alí, foi poder sentir na pele o que há de mais primitivo, primordial e fundamental neste esporte.
Em cada campo de várzea vivem os mesmos anjos e demônios que rabiscam enredos improváveis em tudo que é canto do futebol.
A sorte é que, enquanto existem esses campos, a gente pode, por algumas vezes, ser a estrela daquilo que, pela vida toda, assistimos, apenas assistimos.
Muitas vezes se assemelha com o mundo fora das 4 linhas. Algumas vezes é o contrário.
O Brasil possui, na várzea, um tesouro. Um dos únicos argumentos possíveis de quem defende ser o Brasil o "país do futebol".
Jogo na várzea toda semana, e preciso disso. Competir no campo, para não precisar competir em outros setores da vida.
Ter adversários lá dentro, pra redimensionar e relativizar os amigos e as relações fora dalí.
Meu time estava em uma crise braba. Muitas derrotas. E enfrentaria seu maior rival. Eu queria encontrar respostas.
Era o capitão. Deixei de ser. Usava uma camisa. Mudei de número. Era lateral. Fui pra zaga. 2° tempo: 0x3.
O time em conflito interno, xinga-se. Lance comum, e eu arranco da zaga. Quando vejo, passei os zagueiros deles, e recebo a bola. 1x3.
Caio de joelhos e choro. Pra mim, aquela arrancada e aquele gol já me eram uma resposta. Porque o futebol tem dessas mensagens dissociadas do sucesso.
O jogo, na lama deliciosa da várzea pós-chuva, fica tenso. Pancadas, provocações, e eu passo pra lateral, em virtude do arranque do 1° gol.
Um deles desaba. A bola vem pra mim. Não respeito o tal "fair play", vou pra cima da marcação. Recebo pontapé. O jogo pára para o atendimento, e para as ameaças.
Entre cotovelos e solas, bato mais boca e ganho um escanteio-com-solada. Vou pra área. A bola vem. Em dou passos pra trás e tomo um soco no rosto.
Ainda assim, sai o gol. Gol com soco. Confesso, não vi. Tive que revidar a agressão. Alguém me agarra e me lembra que está 2x3.
O jogo fica frenético desde então. Lance final. Escanteio. Eu corro e pego a bola para cobrar. Nunca cobrei um escanteio na minha vida.
Reclamam e me cobram pelo ato. Irredutível e irresponsável, eu cobro. E o gol de empate sai, de cabeça. Caio no barro, às lágrimas, enquanto ouço uma porção de espectadores cantarem meu nome.
Em qualquer outro lugar do mundo, eu ficaria triste, Frustrado, por tomar um soco, revidar, provocar, afrontar.
Mas, nos contextos de um jogo de futebol, o peso das coisas muda.
Não sou inimigo de quem me bateu. A briga lá dentro não é pessoal. "Pára de brigar porque foi gol" é o argumento que bastou. Pra um lado e pro outro.
Acabo de viver o jogo mais maluco que já joguei. A vitória não veio e isso não é importante. Meus gols e assistências também não me são o mais importante.
Importante, pra mim, alí, foi poder sentir na pele o que há de mais primitivo, primordial e fundamental neste esporte.
Em cada campo de várzea vivem os mesmos anjos e demônios que rabiscam enredos improváveis em tudo que é canto do futebol.
A sorte é que, enquanto existem esses campos, a gente pode, por algumas vezes, ser a estrela daquilo que, pela vida toda, assistimos, apenas assistimos.
Futebol e o meu mundo real
Em 2005, após a classificação do São Paulo para a semi-final da Libertadores, eu, palmeirense, tive o que mais pode se aproximar de uma certeza inequívoca. Meu coração ainda estava fragilizado com a eliminação, dias antes, de meu time na mesma Libertadores, para o mesmo São Paulo. Era preciso estar antipático aos meus algozes.
Na boca do vestiário, Rogério Ceni responde apressado para muitos repórteres. Um deles faz uma observação sobre estar a apenas 4 jogos do "desejo tricolor". Pela primeira vez naquela entrevista forçada, Ceni move o pescoço e procura o interlocutor. Olha bem para o jornalista e o interrompe. "Eu não desejo ganhar a Libertadores. Eu preciso".
Eis minha sensação de certeza. Seria muito difícil tirar aquilo do Tricolor.
Na época eu era um estudante de jornalismo. Dos 4 anos de faculdade, passei mais de três deles caindo em entrevistas e concursos de emprego. Um mísero estágio aqui, dívidas alí, bicos, e, faltando 5 meses pra formatura, estou diante do que pode ser minha última entrevista de trabalho como estudante.
E nela, me lembrei de Rogério Ceni. Eu precisava do trabalho. Citei a mesma frase dele (porque você quer trabalhar conosco?). Ganhei o trabalho e nele fiquei por 3 anos. Não foi pelo uso da frase de efeito. Mas minha situação alí poderia ser comparada a de Ceni, lá.
E estou falando de um vilão palmeirense. Mas poderia falar de mil outros exemplos vindos de São Marcos, de minha infância com Evair, de Scolari, as Copas do Mundo, os sul-americanos sub-20, cada chuva e cada sol em cada jogo que vi e que joguei, o futebol no vídeo-game, no estrelão, no tapete de casa.
O futebol é capaz de traduzir em forma de metáfora todas as minhas experiências relevantes. O futebol é a coisa que me dá a leitura alternativa de minhas próprias vivências. Cada um tem, ou deveria ter, a sua própria poesia intangível, seja ela uma religião, uma banda de música, novelas, o que for, algo que nos absolva e nos dê a oração sem ladainha, nos dê a canção sem aula de partitura.
No meu caso, é o futebol. Que me explica a fé, me mostra os opostos, ensina a me propor perder para poder ganhar, e me dá pequenas coisas que me fazem todo sentido e que nunca saem de mim, me formam o caráter, me fazem não ser tão pesado o tempo todo.
O mundo do futebol explica o mundo real também nas imperfeições. Seria chato e sem sentido se assim não fosse. Os rebaixamentos e os terremotos estão quites. A beleza pode ser triste, a tristeza pode ser bela, tudo é uma questão de leitura.
Uma questão de saber interpretar, saber ser ponderado para ouvir o futebol, terno o suficiente para entender suas ironias. É preciso tato, para não levar tão ao pé da letra, ou ao extremo possível, um goleiro "precisar" de uma conquista (ou um garoto de um emprego).
E é preciso compreender que, no futebol ou na vida, nem toda mensagem é objetiva e justa, algumas delas sequer são alcançáveis, muitas são utópicas, inclusive. Mas existe um pensador chamado Sócrates, aquele Brasileiro, ex-Corinthians, que disse sabiamente que "quem não tem utopia, já nasceu morto".
E até isso o futebol nos explica.
Na boca do vestiário, Rogério Ceni responde apressado para muitos repórteres. Um deles faz uma observação sobre estar a apenas 4 jogos do "desejo tricolor". Pela primeira vez naquela entrevista forçada, Ceni move o pescoço e procura o interlocutor. Olha bem para o jornalista e o interrompe. "Eu não desejo ganhar a Libertadores. Eu preciso".
Eis minha sensação de certeza. Seria muito difícil tirar aquilo do Tricolor.
Na época eu era um estudante de jornalismo. Dos 4 anos de faculdade, passei mais de três deles caindo em entrevistas e concursos de emprego. Um mísero estágio aqui, dívidas alí, bicos, e, faltando 5 meses pra formatura, estou diante do que pode ser minha última entrevista de trabalho como estudante.
E nela, me lembrei de Rogério Ceni. Eu precisava do trabalho. Citei a mesma frase dele (porque você quer trabalhar conosco?). Ganhei o trabalho e nele fiquei por 3 anos. Não foi pelo uso da frase de efeito. Mas minha situação alí poderia ser comparada a de Ceni, lá.
E estou falando de um vilão palmeirense. Mas poderia falar de mil outros exemplos vindos de São Marcos, de minha infância com Evair, de Scolari, as Copas do Mundo, os sul-americanos sub-20, cada chuva e cada sol em cada jogo que vi e que joguei, o futebol no vídeo-game, no estrelão, no tapete de casa.
O futebol é capaz de traduzir em forma de metáfora todas as minhas experiências relevantes. O futebol é a coisa que me dá a leitura alternativa de minhas próprias vivências. Cada um tem, ou deveria ter, a sua própria poesia intangível, seja ela uma religião, uma banda de música, novelas, o que for, algo que nos absolva e nos dê a oração sem ladainha, nos dê a canção sem aula de partitura.
No meu caso, é o futebol. Que me explica a fé, me mostra os opostos, ensina a me propor perder para poder ganhar, e me dá pequenas coisas que me fazem todo sentido e que nunca saem de mim, me formam o caráter, me fazem não ser tão pesado o tempo todo.
O mundo do futebol explica o mundo real também nas imperfeições. Seria chato e sem sentido se assim não fosse. Os rebaixamentos e os terremotos estão quites. A beleza pode ser triste, a tristeza pode ser bela, tudo é uma questão de leitura.
Uma questão de saber interpretar, saber ser ponderado para ouvir o futebol, terno o suficiente para entender suas ironias. É preciso tato, para não levar tão ao pé da letra, ou ao extremo possível, um goleiro "precisar" de uma conquista (ou um garoto de um emprego).
E é preciso compreender que, no futebol ou na vida, nem toda mensagem é objetiva e justa, algumas delas sequer são alcançáveis, muitas são utópicas, inclusive. Mas existe um pensador chamado Sócrates, aquele Brasileiro, ex-Corinthians, que disse sabiamente que "quem não tem utopia, já nasceu morto".
E até isso o futebol nos explica.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Palmeiras sem TV
Da segunda metade da década de 70 até o fim da de 80, produzimos nossas primeiras imagens de ótima qualidade, de fôlego, profundidade e bastante replicadas.
Antes disso, muitos gols, mas poucos compactos, poucos teipes, pouca nitidez. Depois disso, os "tempos modernos", que, mesmo que seja reprisado, não tem o mesmo glamour.
Essas imagens dos anos 70 e 80 são deliciosas. O áudio, os rojões e as bandeiras simples nas bancadas, as formas de narração, os uniformes mais tradicionais, imaculados e sem calções misturados, o visual dos atletas, a bola, a rede, tudo! É sempre um deleite ver essas imagens.
Formam as novas gerações de amantes do futebol, que assistem a isso para entenderem o presente.
Pois bem. Ao palmeirense, é aflitivo notar que esses anos "áureos" do romantismo visual com o "rec" ligado foram anos de nenhum título.
Imagens como Serginho Chulapa fazendo o gol de 84 pelo Santos, ou o calcanhar do Sócrates em 82, o carrinho de Viola em 88, os Menudos do São Paulo de 85, a década de Zico no Maracanã, são, todas elas, formadoras de nossa relação afetiva com a bola.
E essa época, embora tenha o mesmo peso histórico das outras, é mais repetida, mais vista, com mais carga emocional. E isso agride um pouco o palmeirense.
Primeiro, porque os dois Brasileirões conquistados pelo Verdão, em 72 e 73, foram, desgraçadamente, com dois 0x0, e não há muitas boas imagens sobre isso, tampouco dos Robertões e Taças Brasil de antes.
E, sobretudo, de toda essa safra deliciosa de imagens saborosas, o palmeirense tem 3 pequenos "grandes momentos": a despedida de Ademir da Guia, o 4x1 sobre o Flamengo no Maracanã em 79, e o gol feito pelo juiz José de Assis Aragão, em 83, num Palmeiras x Santos.
É como se o hiato de títulos palmeirense tivesse acontecido justamente na época mais reprisada.
É uma questão estética importante, contribui para a formação do caráter do novo torcedor, que tem nas cores e nuances dessas imagens algo como uma aula, uma conversa com o avô.
Um golpe de azar, de certo. A fila de 23 anos do Corinthians não é rica em imagens. Mas o título, em 77, é um documento que qualquer arquivo de Tv possui na íntegra, o que contribui, inclusive, pra mística da conquista.
O Palmeirense precisa sa resignar por isso, ou esperar que as imagens da década de 90 se tornem velhas.
Mas, mesmo assim, é diferente. A primeira geração altamente gravada e televisionada de nosso futebol foi ingrata ao Palmeiras.
Antes disso, muitos gols, mas poucos compactos, poucos teipes, pouca nitidez. Depois disso, os "tempos modernos", que, mesmo que seja reprisado, não tem o mesmo glamour.
Essas imagens dos anos 70 e 80 são deliciosas. O áudio, os rojões e as bandeiras simples nas bancadas, as formas de narração, os uniformes mais tradicionais, imaculados e sem calções misturados, o visual dos atletas, a bola, a rede, tudo! É sempre um deleite ver essas imagens.
Formam as novas gerações de amantes do futebol, que assistem a isso para entenderem o presente.
Pois bem. Ao palmeirense, é aflitivo notar que esses anos "áureos" do romantismo visual com o "rec" ligado foram anos de nenhum título.
Imagens como Serginho Chulapa fazendo o gol de 84 pelo Santos, ou o calcanhar do Sócrates em 82, o carrinho de Viola em 88, os Menudos do São Paulo de 85, a década de Zico no Maracanã, são, todas elas, formadoras de nossa relação afetiva com a bola.
E essa época, embora tenha o mesmo peso histórico das outras, é mais repetida, mais vista, com mais carga emocional. E isso agride um pouco o palmeirense.
Primeiro, porque os dois Brasileirões conquistados pelo Verdão, em 72 e 73, foram, desgraçadamente, com dois 0x0, e não há muitas boas imagens sobre isso, tampouco dos Robertões e Taças Brasil de antes.
E, sobretudo, de toda essa safra deliciosa de imagens saborosas, o palmeirense tem 3 pequenos "grandes momentos": a despedida de Ademir da Guia, o 4x1 sobre o Flamengo no Maracanã em 79, e o gol feito pelo juiz José de Assis Aragão, em 83, num Palmeiras x Santos.
É como se o hiato de títulos palmeirense tivesse acontecido justamente na época mais reprisada.
É uma questão estética importante, contribui para a formação do caráter do novo torcedor, que tem nas cores e nuances dessas imagens algo como uma aula, uma conversa com o avô.
Um golpe de azar, de certo. A fila de 23 anos do Corinthians não é rica em imagens. Mas o título, em 77, é um documento que qualquer arquivo de Tv possui na íntegra, o que contribui, inclusive, pra mística da conquista.
O Palmeirense precisa sa resignar por isso, ou esperar que as imagens da década de 90 se tornem velhas.
Mas, mesmo assim, é diferente. A primeira geração altamente gravada e televisionada de nosso futebol foi ingrata ao Palmeiras.
terça-feira, 7 de abril de 2009
A experiência de um Fla-Flu

Não existia uma lógica que explicasse minha ida ao Rio de Janeiro num final de semana normal como esse. Pra ver o Maracanã? Mas o Fla-Flu de domingo não valerá nada! Pra conhecer as praias? Espera uma semana e vá no feriado!
Fui no impulso, e bons impulsos não podem ser rejeitados. Sem saber onde ia dormir, pois ainda não desconfiava que um rapaz, gaúcho e sãopaulino, que sequer me conhecia pessoalmente, me deixaria debaixo de um teto, a poucos metros da praia de Copacabana.
O Rio de Janeiro é um labirinto semântico, é fácil defini-lo com os olhos, não com as palavras. Seu povo é receptivo e marrento, eles sabotam qualquer estereótipo verbal. Os contrastes não são só visuais, mas conceituais. Eu vi os micro-shorts das meninas, vi rapazes sem camisas em restaurantes, e será que, afinal, a vulgaridade está no que se veste?
Domingo de Fla-Flu. Pela manhã, fiz minha farra solitária em Copacabana. Cooper, exercícios, chopp, tomei sol, mergulhei, e quando sentei na sombra pra ler jornal, vi em minha frente ser montado um campo de handebol de praia feminino. Isso existe. Assisti um pouco, e vi que o esporte é novo, ainda carece de adaptações na regra, o jogo não é nada atrativo. Uma bola de futebol americano corre de mão em mão mais à esquerda, e, ao fundo, começa a maratona aquática, uma travessia pelo mar que contou com trasmissão da TV.
Sentindo falta do futebol, ou mesmo do futevôley, fui me aprontar para o Maracanã. Metrô. Entram umas 25 pessoas juntas e animadas. Faço amizade com um desses. É o capitão de um time militar que veio jogar um campeonato de futebol no Rio. Vieram todos de Brasília com a família. Ele era vascaíno, estava curioso pra conhecer o estádio-mãe. A cada estação, mais torcedores entram, e dos dois times.
Para um paulistano, isso choca. Quero dizer que sei, claro que sei, que no Rio de Janeiro a violência entre torcedores é grande (existe violência pequena?) e a relação com a polícia não é nada boa. Mas existe uma diferença capital entre a violência das torcidas no Rio e em São Paulo. Aparentemente, no Rio de Janeiro os torcedores comuns se impõem. Reconhecem a violência, mas não abrem mão do metrô, que é deles. Fazem o que tem que ser feito.
Outro aspecto é o jornal. Lí dois jornais diferentes, cariocas, e não encontrei textos carrancudos, pessimistas, daqueles que desencorajam os mais novos e desanimam os mais velho. O caderno de esportes carioca ainda é romântico, não há campanha anti-estádio. O torcedor se escora no que está no jornal, que é o que a sociedade lê. Se o jornal faz campanha anti-estádio, a sociedade se amedronta, e o torcedor não acha eco, nem em casa, nem no metrô.
Posto isso, lembremos também que o Rio é cidade com praia, e aquelas garotas que citei sequer tiram os micro-shorts pra ir ao estádio. Elas influem tanto quanto a polícia na manutenção do bom andamento das coisas, elas inibem "bagunças" de "machões", num exemplo semelhante ao argumento dos que dizem que a grade de proteção só fomenta a violência. Os organizados podem levar faixas, bandeiras, adereços variados, o clima fica bom e bonito, todos estão ocupados, vendo ou fazendo a festa visual, a festa sonora.
Vale dizer que comprei o ingresso em um minuto, faltando meia-hora pro jogo começar. Um minuto. Em São Paulo, faltando 30 minutos pro jogo começar, eu perderia o pontapé inicial. Ainda mais porque, pra entrar, demoro mais muitos minutos. No Maracanã, em 30 segundos com o ingresso na mão, já estava do lado de dentro das catracas. É engraçado o sistema de revista, pois eu só precisei levantar a camiseta. Ou será que o engraçado é poder entrar com o jornal na mão? Vocês sabiam que em São Paulo é proibido entrar no estádio com o jornal na mão?
Muito bem impressionado com a maneira informal e racional de se tratar o torcedor, me admirei em subir a rampa com as torcidas misturadas. Ao fim da rampa, você escolhe se vai pra esquerda ou pra direita, em alguma das duas massas. Telefonei pra uma amiga flamenguista, e um amigo fluminense. Ela ia ficar do lado de fora. Fui apoiar, então, o tricolor. camisas de Fred, e, pasmei, camisas de Washington.
E a torcida canta músicas de referências locais. Gostei das versões de cantos inspiradas em canções de RPM, Roupa Nova ou mesmo funks. Vai ao longe da chatice paulistana de lotar as bancadas com "da-lhe ô, da-lhe ô" e outras melodias argentinas, tendo raríssimas exceções. O torcedor carioca, além de ter o Maracanã, está em momento mais liberto e criativo que o paulista. Ele pode levar coisas, ele pode fazer coisas, ele não aponta o dedo raivoso para as torcidas organizadas, ele não tem receio de pegar o metrô.
No Maraca não se vende cerveja. exemplo copiado de São Paulo. É discutível. Pra mim, discursos de terror em tribunas esportivas, entrevistas com líderes de torcida que só subvertem a importãncia das mesmas, e trabalho obsessivamente ostensivo da polícia são, por exemplo, mais nocivos que uma cerveja. Futebol não é um evento como show de uma orquestra. É tenso, à flor da pele, isso é próprio do futebol, não da cerveja, e se me dizes que uma cerveja potencializa o instinto brigão de um brigador, eu te respondo que a prioridade ainda é o torcedor vascaíno que saiu de Brasília, está indo conhecer o estádo-mãe, e, por ventura, vai querer uma cerveja pra desfrutar o momento.
Saio do estádio após o 1x1 de final elétrico, e, veja você, bebo cerveja, a 500 metros do estádio, com a amiga flamenguista que não entrou. Domingo que vem tem Fla-Flu de novo. Agora, valendo classificação, eliminação. Dá vontade de ir de novo. Foi um ótimo fim-de-semana, e meus olhos vêem flores. Adorei a experiência. Não há o que extingua o aspecto perigoso de dar de cara com a violência em um local desses, enquanto o país não mudar antes. Mas fiquei otimista em ver a forma como é tratado o jogo, nos jornais e nas ruas, na entrada e na saída. É algo que se aproxima do que eu julgo ser ideal.
Acho que o modelo carioca de geir um clássico dá mais certo que o paulista.
terça-feira, 31 de março de 2009
Acima Assinado
Kadj Oman é um amigo de atos diferenciados. Em todos os cantinhos da vida.
Seu blog está aqui nos indicados.
E sua mais recente epopéia virou, com justiça, notícia.
É simplesmente genial: acompanhem aqui
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segunda-feira, 16 de março de 2009
A sala
Eu tive um lugar, que não é nenhuma arquibancada, que me serviu como um banco de faculdade, que me ajudou, me formou um amante do futebol. Devo a esse lugar boa parte do que e de como aprendi a raciocinar o esporte.
É a sala do meu melhor amigo. Eu não tinha TV a cabo. E, por assim, dizer, eu também não tinha pai. Em 20 minutos eu estava na casa dele. Era fascinante, o campeonato italiano, inglês, espanhol, mil replays, uma Tv à prova de Faustão. O pai do meu amigo era Nápoli, era Colônia, o irmão dele era Dortmund, e ele era Liverpool. Era saudável. Eles eram corinthianos, eu, o oposto. Igualmente saudável, e alí, com eles, assisti a mais de um Derby.
O pai do meu melhor amigo é jornalista. Nós viramos. Naquela sala, a gente jogava futebol de botão nas noites, e era o adulto, o pai, que fazia as tabelas. No computador do quarto, o simulador de futebol era dividido com todos. A mesa da cozinha dele já foi gol. O quintal já foi campo. Mas falo da sala. É a sala que me toca.
Eles me deixaram viver grandes maratonas futebolísticas, sempre com a maior generosidade do mundo. Eu não queria ir embora, eu pressionava minha mãe para ter a bendita TV a cabo em casa. TV a cabo, leia-se futebol europeu. Por ver menos, eu sabia menos. Eu me esforçava para acompanha-los nas acaloradas discussões naquela sala. Eles tinham umas revistas importadas, uma coleção de camisas extensa, que assim, falando, até parece que eu tinha inveja.
Pois bem. A casa está vendida. O pai já não mora lá. Ainda assim, foi com eles que assisti, domingo que se foi, ao Derby do Ronaldo. Tinha que empatar,por nós. E, ao empatar, tinha que ser do Ronaldo - naquela sala, vibrei com Ronaldo nas Copas do Mundo, nas raras chances que tinha de torcer pro mesmo time que eles.
Uma semana depois, e é aniversário do pai da casa. Jantar na casa dele. Um pouco de cerveja, e o sono. Acordo às 3 da manhã. desço pra sala. O pai está dormindo no sofá. Eu mudo de canal. Não acho um jogo. Mas contemplo a sala. Lembro do tempo que tive alí. Me permito ir à geladeira, pego um refresco, sorrio me exergando sujo de quintal, moleque, alí no sofá. Volto, e logo meu amigo também acorda. São 3h30 da manhã. Ele aperta o botão do controle remoto. E está passando um teipe do Arsenal.
Ele não viu, mas caiu uma lágrima. A mesma que cai agora ao escrever. Eu estava alí, assistindo, talvez, ao último jogo naquela sala. Um jogo absolutamente desimportante, como tantas centenas que assistimos juntos.
Ao fim deste, é verdade que vimos outro teipe, do Palmeiras, e, no domingo, vimos trechos de alguns outros jogos. Mas é do jogo entre Arsenal e Blackburn que jamais vou me esquecer. E veja só, sem fazer força: foi com eles que soube que o fim da fila do Arsenal virou livro, filme, Febre de Bola. Foi por eles que soube que a título do Blackburn, em 95, significou o fim de um jejum de mais de 50 anos.
Mais uma coisa que se vai de minha vida. A casa onde eu mais respirei futebol. Valeu demais.
É a sala do meu melhor amigo. Eu não tinha TV a cabo. E, por assim, dizer, eu também não tinha pai. Em 20 minutos eu estava na casa dele. Era fascinante, o campeonato italiano, inglês, espanhol, mil replays, uma Tv à prova de Faustão. O pai do meu amigo era Nápoli, era Colônia, o irmão dele era Dortmund, e ele era Liverpool. Era saudável. Eles eram corinthianos, eu, o oposto. Igualmente saudável, e alí, com eles, assisti a mais de um Derby.
O pai do meu melhor amigo é jornalista. Nós viramos. Naquela sala, a gente jogava futebol de botão nas noites, e era o adulto, o pai, que fazia as tabelas. No computador do quarto, o simulador de futebol era dividido com todos. A mesa da cozinha dele já foi gol. O quintal já foi campo. Mas falo da sala. É a sala que me toca.
Eles me deixaram viver grandes maratonas futebolísticas, sempre com a maior generosidade do mundo. Eu não queria ir embora, eu pressionava minha mãe para ter a bendita TV a cabo em casa. TV a cabo, leia-se futebol europeu. Por ver menos, eu sabia menos. Eu me esforçava para acompanha-los nas acaloradas discussões naquela sala. Eles tinham umas revistas importadas, uma coleção de camisas extensa, que assim, falando, até parece que eu tinha inveja.
Pois bem. A casa está vendida. O pai já não mora lá. Ainda assim, foi com eles que assisti, domingo que se foi, ao Derby do Ronaldo. Tinha que empatar,por nós. E, ao empatar, tinha que ser do Ronaldo - naquela sala, vibrei com Ronaldo nas Copas do Mundo, nas raras chances que tinha de torcer pro mesmo time que eles.
Uma semana depois, e é aniversário do pai da casa. Jantar na casa dele. Um pouco de cerveja, e o sono. Acordo às 3 da manhã. desço pra sala. O pai está dormindo no sofá. Eu mudo de canal. Não acho um jogo. Mas contemplo a sala. Lembro do tempo que tive alí. Me permito ir à geladeira, pego um refresco, sorrio me exergando sujo de quintal, moleque, alí no sofá. Volto, e logo meu amigo também acorda. São 3h30 da manhã. Ele aperta o botão do controle remoto. E está passando um teipe do Arsenal.
Ele não viu, mas caiu uma lágrima. A mesma que cai agora ao escrever. Eu estava alí, assistindo, talvez, ao último jogo naquela sala. Um jogo absolutamente desimportante, como tantas centenas que assistimos juntos.
Ao fim deste, é verdade que vimos outro teipe, do Palmeiras, e, no domingo, vimos trechos de alguns outros jogos. Mas é do jogo entre Arsenal e Blackburn que jamais vou me esquecer. E veja só, sem fazer força: foi com eles que soube que o fim da fila do Arsenal virou livro, filme, Febre de Bola. Foi por eles que soube que a título do Blackburn, em 95, significou o fim de um jejum de mais de 50 anos.
Mais uma coisa que se vai de minha vida. A casa onde eu mais respirei futebol. Valeu demais.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
O Personal e o Paternal
Estava conversando com um amigo minutos atrás, sobre o tema.
Ambientes paternalistas te confortam num primeiro momento.
Mas te reprimem a personalidade no momento seguinte.
Não há como ser personalista num local onde não há oposição, não há cobrança.
Porque paternalismo, só de pai.
Paternalismo profissional não é gratuito.
Quem te protege muito, vai te cobrar no futuro.
E uma cobrança cruel: que tu sejas como ele idealizou.
O paternalismo te deixa em dívida. Não te deixa rebelar-se, exaltar-se.
Só cresce quem tem a sorte de enfrentar um desafio, uma pressão.
Fernando Pessoa: Deus ao mar o perigo e o abismo deu. Mas nele que espelhou o céu.
Você só existe num ambiente a partir do momento que se personaliza, que se propõe a usar a sua tinta, que sugere um trabalho cujo qual alguém há de se opor.
E para isso, um ambiente que só afaga certamente vai significar fracasso.
Indo ao mundo real dessa divagação:
Entendo que Kaká vá para o City. Se ele compreender que o desafio é importante, mais que as críticas que virão sobre a opulência cega da transação. Interpreto o Milan como um time paternalista demais. O City não é exemplo do contrário, mas estaria o Milan, assim, tão profissional a ponto de fazer Kaká virar as costas pro planeta? O Milan de Beckham?
Usando esse mesmo pensamento, que por sinal uso em todas esferas de minha vida, poderia compreender o incômodo de Felipão em Portugal, e o tesão no Chelsea - alguém duvida que a motivação dele no clube está justamente no fato de haver cobrança?
Poderia jogar uma luz diferente em perfis profissionais aparentemente tranquilos e realizados, como Bernardinho e Muricy, ou entender os conflitos de Mourinho, ou interpretar a carreira blindada e o desafio de Rivaldo no Uzbequistão.
Tento não julgar o desafio de ninguém. Costumo olhar aflito o comportamento de profissionais que entram num ciclo de quase-unanimidade.
A construção da personalidade é feita com um engenheiro, um pedreiro, um arquiteto. A personalidade é uma casa onde mora só uma pessoa. Você.
E é difícil a beça separar o que é capricho do que é desafio em sua própria vida. Impossível julgar o mesmo na vida dos outros.
Ambientes paternalistas te confortam num primeiro momento.
Mas te reprimem a personalidade no momento seguinte.
Não há como ser personalista num local onde não há oposição, não há cobrança.
Porque paternalismo, só de pai.
Paternalismo profissional não é gratuito.
Quem te protege muito, vai te cobrar no futuro.
E uma cobrança cruel: que tu sejas como ele idealizou.
O paternalismo te deixa em dívida. Não te deixa rebelar-se, exaltar-se.
Só cresce quem tem a sorte de enfrentar um desafio, uma pressão.
Fernando Pessoa: Deus ao mar o perigo e o abismo deu. Mas nele que espelhou o céu.
Você só existe num ambiente a partir do momento que se personaliza, que se propõe a usar a sua tinta, que sugere um trabalho cujo qual alguém há de se opor.
E para isso, um ambiente que só afaga certamente vai significar fracasso.
Indo ao mundo real dessa divagação:
Entendo que Kaká vá para o City. Se ele compreender que o desafio é importante, mais que as críticas que virão sobre a opulência cega da transação. Interpreto o Milan como um time paternalista demais. O City não é exemplo do contrário, mas estaria o Milan, assim, tão profissional a ponto de fazer Kaká virar as costas pro planeta? O Milan de Beckham?
Usando esse mesmo pensamento, que por sinal uso em todas esferas de minha vida, poderia compreender o incômodo de Felipão em Portugal, e o tesão no Chelsea - alguém duvida que a motivação dele no clube está justamente no fato de haver cobrança?
Poderia jogar uma luz diferente em perfis profissionais aparentemente tranquilos e realizados, como Bernardinho e Muricy, ou entender os conflitos de Mourinho, ou interpretar a carreira blindada e o desafio de Rivaldo no Uzbequistão.
Tento não julgar o desafio de ninguém. Costumo olhar aflito o comportamento de profissionais que entram num ciclo de quase-unanimidade.
A construção da personalidade é feita com um engenheiro, um pedreiro, um arquiteto. A personalidade é uma casa onde mora só uma pessoa. Você.
E é difícil a beça separar o que é capricho do que é desafio em sua própria vida. Impossível julgar o mesmo na vida dos outros.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Luiz Fernando Bindi
Hoje Luiz Fernando Bindi faria 36 anos de vida. Morreu no dia 22 de julho.
Se você não conheceu o trabalho do Bindi, foi por falta de tempo. Certamente você o conheceria daqui, sei lá, um
, dois anos. Se você conheceu seu trabalho, sabe o tamanho da destreza e categoria.
Eu conheci o trabalho e a pessoa. Fui um privilegiado. Quando ele partiu, este blog não existia. Este blog, inclusive, é dedicado a ele. E, abaixo, o que eu escrevi, no dia 23, certamente o texto mais difícl que já escrevi.
Feliz aniversário, Bindão.
* * * * *
Nessum Dorma
Chego em casa quase meia-noite. Minha mãe me recepciona e eu lhe presenteio com um aparelho de MP3 que ganhara horas antes. Ela agradece mas não entende muito. Explico didaticamente a finalidade do bichinho. Ela comemora e pergunta se pode ouvir qualquer música. Digo que ponho o que ela pedir. Ela cita uma música. Eu pasmo. pergunto porque justo aquela.
-Essa música a Vandinha pediu pra eu ouvir no dia que ela morreu, quando a gente era menina.
Eu engulo seco. Tento lhe contar uma má notícia, mas opto por uma frase mais simples.
-Mãe... a gente se acostuma com essa coisa de morte?
-Ah, filho... não tem jeito, sempre dói. A gente não aprende.
Eu tomo o MP3 de sua mão e vou para o quarto, chorar e escrever estas linhas. A música que ela citou era exatamente a mesma que estava ouvindo, horas antes, fim de tarde, na mesa de trabalho, quando recebi a notícia que me congelou a espinha.
Estava vendo o blog do meu amigo, o jornalista e geógrafo Luiz Fernando Bindi. Uma postagem nova tinha uma foto curiosa, que mostrei ao parceiro de sala, e depois enviei, por link, para alguns amigos online. Um deles me respondeu.
-Legal a foto, mas você me enviou pela foto ou pela morte?
E foi assim que soube que Bindi partiu. Estava na sala de seu blog, no quintal de sua postagem, avisando os vizinhos para que olhassem aquele quintal. Tão vivo. A música se seguiu enquanto eu chorava e tinha que receber na porta o tal amigo que me daria o MP3.
Não consigo levantar da cadeira. "Digam que não estou". Tento notícias. E é fato que o coração amável do gordinho mais batuta da Mooca parou de bater. Falo com meu amigo Kadj Oman, para dizer a ele que sou feliz em te-lo conhecido este ano. Algo que queria ter dito a Bindi, a melhor pessoa que conheci nos últimos tempos.
A última vez que falei com ele foi via SMS, como sempre fazíamos após os jogos do Palmeiras. abro a mensagem e não soa como vindo de um falecido. Falo com uma colega da rádio 105FM. Vão pipocando mensagens pela internet toda. Perplexas. Tetricamente, recados choviam no orkut do nosso Bindi.
Que me chamava de "Foca de Base", desde que montamos uma metáfora futebolística para os estágios de nossa carreira, que, inclusive, ele vinha tão feliz em construir. Que eu chamava de "novo Claudio Zaidan", posto que costumávamos ter os mesmos ídolos. Que nunca me poupou, nunca foi paternalista, e isso só valorizou cada elogio que fez aos meus atributos profissionais. Que já me deu conselhos amorosos, morais, me deu dicas de mercado e cinema, e sempre foi absolutamente generoso ao passar seus conhecimentos, dividir suas informações, ensinar seus métodos, a quem quer que fosse, e a mim também. Ele sabia que o único capital intangível está naquilo que fica quando a gente se vai.
Falávamos muito sobre ópera. Tínhamos cachorros da mesma raça, e o amor dele pelos bichos era divino. Eu tinha prazer em ter no Bindi um lugar pra aprender de pouco em pouco, um nome que eu podia ter como referência, porque ele era um profissional obcecado por lisura e conduta linear, e uma pessoa de inesgotável doçura. Um cara e tanto. Só 35 anos. Um dos maiores arcabouços culturais desse país não pode mais ser acessado.
Eu não queria só agradecer a força que ele sempre me deu desde que viu meu trabalho. Eu queria tocar minha carreira com ele por perto. Sabe lá o que será do meu futuro. Mas eu queria ver o que seria do promissor futuro dele. Não verei.
É normal que, quando alguém morre, surgam relatos hiperbolizando a bondade do sujeito. Aos olhos de quem não o conheceu, Luiz Fernando Bindi é uma dessas vítimas. Pois ele era uma espécie de unanimidade em seu universo. Sábio e confiável à primeira vista. Um dos mais talentosos pesquisadores desse país. Um cara que, por mais torpe que soe, não podia nem merecia morrer tão cedo, e tão antes de tanta gente. Insubstituível.
Dói e a questão não é se acostumar. É certo que vai ficar um pigarro, um arranhão na garganta. Esta falta vai incomodar a cada um de nós. Por mais que daqui pra frente tudo aconteça de bom, haverá a ressalva: "Mas seria melhor se o Bindi estivesse por aqui". O moço tão simples e de tão absurda capacidade, que eu conheci a tão pouco tempo e já tenho que me despedir. E fui.
-Você era amigo do trabalho dele?
-Não. Eu era aluno.
Se você não conheceu o trabalho do Bindi, foi por falta de tempo. Certamente você o conheceria daqui, sei lá, um
, dois anos. Se você conheceu seu trabalho, sabe o tamanho da destreza e categoria.Eu conheci o trabalho e a pessoa. Fui um privilegiado. Quando ele partiu, este blog não existia. Este blog, inclusive, é dedicado a ele. E, abaixo, o que eu escrevi, no dia 23, certamente o texto mais difícl que já escrevi.
Feliz aniversário, Bindão.
* * * * *
Nessum Dorma
Chego em casa quase meia-noite. Minha mãe me recepciona e eu lhe presenteio com um aparelho de MP3 que ganhara horas antes. Ela agradece mas não entende muito. Explico didaticamente a finalidade do bichinho. Ela comemora e pergunta se pode ouvir qualquer música. Digo que ponho o que ela pedir. Ela cita uma música. Eu pasmo. pergunto porque justo aquela.
-Essa música a Vandinha pediu pra eu ouvir no dia que ela morreu, quando a gente era menina.
Eu engulo seco. Tento lhe contar uma má notícia, mas opto por uma frase mais simples.
-Mãe... a gente se acostuma com essa coisa de morte?
-Ah, filho... não tem jeito, sempre dói. A gente não aprende.
Eu tomo o MP3 de sua mão e vou para o quarto, chorar e escrever estas linhas. A música que ela citou era exatamente a mesma que estava ouvindo, horas antes, fim de tarde, na mesa de trabalho, quando recebi a notícia que me congelou a espinha.
Estava vendo o blog do meu amigo, o jornalista e geógrafo Luiz Fernando Bindi. Uma postagem nova tinha uma foto curiosa, que mostrei ao parceiro de sala, e depois enviei, por link, para alguns amigos online. Um deles me respondeu.
-Legal a foto, mas você me enviou pela foto ou pela morte?
E foi assim que soube que Bindi partiu. Estava na sala de seu blog, no quintal de sua postagem, avisando os vizinhos para que olhassem aquele quintal. Tão vivo. A música se seguiu enquanto eu chorava e tinha que receber na porta o tal amigo que me daria o MP3.
Não consigo levantar da cadeira. "Digam que não estou". Tento notícias. E é fato que o coração amável do gordinho mais batuta da Mooca parou de bater. Falo com meu amigo Kadj Oman, para dizer a ele que sou feliz em te-lo conhecido este ano. Algo que queria ter dito a Bindi, a melhor pessoa que conheci nos últimos tempos.
A última vez que falei com ele foi via SMS, como sempre fazíamos após os jogos do Palmeiras. abro a mensagem e não soa como vindo de um falecido. Falo com uma colega da rádio 105FM. Vão pipocando mensagens pela internet toda. Perplexas. Tetricamente, recados choviam no orkut do nosso Bindi.
Que me chamava de "Foca de Base", desde que montamos uma metáfora futebolística para os estágios de nossa carreira, que, inclusive, ele vinha tão feliz em construir. Que eu chamava de "novo Claudio Zaidan", posto que costumávamos ter os mesmos ídolos. Que nunca me poupou, nunca foi paternalista, e isso só valorizou cada elogio que fez aos meus atributos profissionais. Que já me deu conselhos amorosos, morais, me deu dicas de mercado e cinema, e sempre foi absolutamente generoso ao passar seus conhecimentos, dividir suas informações, ensinar seus métodos, a quem quer que fosse, e a mim também. Ele sabia que o único capital intangível está naquilo que fica quando a gente se vai.
Falávamos muito sobre ópera. Tínhamos cachorros da mesma raça, e o amor dele pelos bichos era divino. Eu tinha prazer em ter no Bindi um lugar pra aprender de pouco em pouco, um nome que eu podia ter como referência, porque ele era um profissional obcecado por lisura e conduta linear, e uma pessoa de inesgotável doçura. Um cara e tanto. Só 35 anos. Um dos maiores arcabouços culturais desse país não pode mais ser acessado.
Eu não queria só agradecer a força que ele sempre me deu desde que viu meu trabalho. Eu queria tocar minha carreira com ele por perto. Sabe lá o que será do meu futuro. Mas eu queria ver o que seria do promissor futuro dele. Não verei.
É normal que, quando alguém morre, surgam relatos hiperbolizando a bondade do sujeito. Aos olhos de quem não o conheceu, Luiz Fernando Bindi é uma dessas vítimas. Pois ele era uma espécie de unanimidade em seu universo. Sábio e confiável à primeira vista. Um dos mais talentosos pesquisadores desse país. Um cara que, por mais torpe que soe, não podia nem merecia morrer tão cedo, e tão antes de tanta gente. Insubstituível.
Dói e a questão não é se acostumar. É certo que vai ficar um pigarro, um arranhão na garganta. Esta falta vai incomodar a cada um de nós. Por mais que daqui pra frente tudo aconteça de bom, haverá a ressalva: "Mas seria melhor se o Bindi estivesse por aqui". O moço tão simples e de tão absurda capacidade, que eu conheci a tão pouco tempo e já tenho que me despedir. E fui.
-Você era amigo do trabalho dele?
-Não. Eu era aluno.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Sobre Leões

Não adiantaria dizer ao torcedor da Portuguesa que é assim mesmo, que há uma nova realidade no futebol brasileiro, e nessa realidade planejamento, profissionalismo e estrutura são mais do que meros termos retóricos e vazios.
Tampouco ganharei a simpatia do lusitano se avaliar a Portuguesa como acima dessa mentalidade perfeitinha do futebol atual. A Lusa é errante, é tranco-e-barrancosa, isso é nobre, mas "e daí?", vai me responder o rubro-verde.
Às vezes noto que o rubro-verde não se importa nem com argumentos prós, muito menos com contras. Ele é à prova de argumentos.
Hoje são só 20 times na Elite, então é difícil se manter. "E o Barueri pode ser um desses?" Ora, o Barueri montou uma estrutura compromissada com políticos, e já faz alguns anos. "Mas doze anos atrás a Portuguesa foi finalista do Brasileirão!".
O fato é que não dá para consolar um lusitano. Não tem caminho. Esse time tem uma pinta única, vai na contra-mão da cultura brasileira que reza que "quanto menos torcida, mais vergonha você deve ter de seu próprio time". A Portuguesa é colônia. É cheia de piadas prontas, de cagadas, de mesquinharias. E é incapaz de causar antipatia nacional.
Mas o torcedor da Lusa muito menos vai ficar satisfeito se eu disser que vou às vezes ao Canindé, e que são muitos os não-lusitanos que torcem "um pouquinho" pelo time. Eu mesmo, torço. E não é porque os acho menores, inofensivos, café-com-leite. Na verdade, eu não sei porquê. O Canindé me relaxa, a Portuguesa representa bem o futebol que eu amo, mística e à flor da pele.
Esse torcedor da Lusa é engraçado. É mesmo um leão. Eu sempre os comparei a um siri. Valente como é, se o siri tivesse o tamanho de um tubarão, não haveria baleia para tirar farinha com ele. E nessa cidade que sufoca tudo que não é "maior", existir a Lusa, na Marginal e à margem das grandes manchetes, beira o inacreditável.
Eu tenho e tive amigos portugueses. Um faleceu, outro vive nas bancadas, outro até foi da assessoria de imprensa. Tive um primo que jogou lá, nos juniores, e ele ficou 14 meses sem receber salário. Não tenho raiva. Entendo a Lusa. Entendo o futebol brasileiro. Entendo que alguns cartolas que passaram pelo Canindé nunca souberam interpretar esse time, e o rubro-verde há de pagar por isso por mais alguns anos.
Eles estão outra vez na Segunda Divisão. Por mais previsível que fosse, é triste dialogar com meu amigo. No primeiro minuto, me senti constrangido, penalizado, horrorizado com o tom de sua voz, com a dor que ele estava sentindo.
Mas no segundo minuto, assim, naturalmente, a coisa se inverteu. Entendi porque não há nenhuma maneira de tentar consolar um torcedor da Portuguesa: apenas não é preciso.
Era mais fácil ele me convencer que ir pra Série-B é uma boa do que eu convencê-lo de qualquer coisa. Inclusive, eu saí do papo convencido que, se a Lusinha vai fazer falta na A, por outro lado nem vai doer estar na B, preencher a B, valorizar a B, que a cada ano está mais forte. A Portuguesa já passou, terna, por coisa muito pior. O torcedor canindeísta há de se sacrificar de novo, e não vai reclamar com deus nem jogar isso na cara das "grandes torcidas" do país. Estas que se acham as fodonas da Rua de Cima só porque estão em maior número.
Faz parte da via-crucis do português. Toda massa sofre suas tragédias. Nenhuma reage à elas igual o lusitano. No fundo, eles gostam do estrago.
Não há nada mais forte que um peito rubro-verde.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Não me matem de vergonha
Abaixo está um texto escrito por mim em abril de 2007.
Escrevi assim que aconteceu aquele episódio do tal fax da FIFA dizendo que o Palmeiras era mesmo campeão mundial de 1951, o que faria o time colocar uma estrela no peito, 56 anos depois. O texto é do torcedor, por isso os termos ferozes.
Soube hoje que dirigentes de Palmeiras e Santos preparam documento oficial para pedir à CBF que reconheça os Robertões como Campeonato Brasileiro. Justo quando um rival se tornará hexa. Assim como o "documento oficial" pedindo o Mundial partiu do Palmeiras assim que um outro rival o conquistou.
Pequeno, constrangedor, vergonhoso. Meu time há de me matar de vergonha, ainda, com essa mentalidade oficialista.
Mais uma piada pronta estará oferecida para os torcedores rivais. O capital intangível não se torna tangível por vias políticas. O capital intangível é um tesouro inestimável, por assim o ser.
Eis o texto "premonitório":
*************
Estrelas, para mim... para quê?
Que pesquisem, que olhem com o respeito que a conquista merece.
Que saibam, ou então que não interfiram.
Falo dos adversários, mas falo mais aos palmeirenses.
A tristeza é o esvaziamento.
Ando falando com amigos sobre o Mundial de 51. É ou não é? Dane-se!
O pior ao Palmeiras já aconteceu. O Palmeiras conquistou uma taça que, desde 1951, é um tesouro incalculável no patrimônio alviverde. E essa geração imbecil de palmeirenses, que gosta da Mancha Verde e acha o Sérgio um goleiro legal, está a um passo de passar a borracha.
Uma taça histórica. 1951. O povo gritava "campeões do mundo!". Os jornais se desmanchavam em idolatria. Nossos heróis queriam ser reconhecidos, berravam em nossa cara, "nos ouçam!"...passou... 1960... 1970... 1980... 1990... 2000...
Não ouvimos nosso povo, não ouvimos nossos heróis. Decidimos ouvir os políticos da FIFA. Aí mora o problema. O crime. O Palmeiras esvazia uma conquista, e estampará uma estrela para provar essa insanidade.
Passamos 56 anos ignorando os heróis, para dar ouvidos aos engravatados. A geração imbecil transformou o motivo de orgulho em uma discussão de botequim. Triste de quem ousou saber a historia, e a vê ser pisada nas mãos da ignorância maciça.
É a fome. Falta títulos? Que se regurgite os passados. Uma vez campeões mundiais em 1999, os palmeirenses nao teriam "fome" de Mundial, ok? Logo, não buscaríamos esse reconhecimento político, e manteríamos o valor das duas conquistas. Mas na falta de um, estragamos o outro...
Não precisávamos de estrelas na camisa. Não precisávamos de um fax da FIFA. Precisávamos conhecer nosso passado, ouvir nossos avôs, respeitar nossa realidade. Se assim fosse, estaríamos, já há 56 anos, estampando uma estrela moral, de orgulho por defender o país em 1951 - chamando ou não de Mundial. Se assim fosse e nada tivéssemos, seria desse nada que viveríamos, e viveríamos bem também.
Seria tão lindo ter orgulho em dizer "ganhamos a Taça Rio!"... Mas estamos em meio a uma geração que sequer sabe que em 1951 não havia Internet. Só interessa bater boca. Só se gosta do estrago. Dane-se a realidade. Nesse caminho, chega-se à conclusão, "óbvia" para o nível ideológico: campeão mundial e pronto, ponto final.
Eu tinha orgulho da taça Rio. Mas ela virou um bloco rápido de programa barato, virou uma piada do Marco Aurélio Cunha, um sorriso do Citadini. Virou palpitaria. A estrela que ficava escondida e era alviverde e imponente, agora estará exposta, morta de constrangimento, para todo esse mundo de imbecis olharem para ela e iniciarem intermináveis discussões a vácuo.
O Palmeiras está a fazer o mesmo com seus Robertões. Esperará a CBF dizer que é um campeonato nacional, para depois cair na vala comum das discussões vazias? Respeitem a história, mas respeitem de fato! O time é muito mais que apenas tetracampeão nacional. Mas a ignorância leva à hipocrisia, e prefere-se esse tipo de conquista, a "adaptada" ao seu "novo tempo". O "moderno" hoje é chamar de "mundial". Daqui 50 anos, a gente vê o que será moderno, batuta, bacana, e tenta se adequar.
E parabeniza-se Mustafá Contursi pelo "empenho nesse reconhecimento". Mustafá, derrotado no Mundial de 99, que sabe a razão do Palmeiras não jogar o Mundial de 2000, consegue trabalhar em seu terceiro Mundial. Perdeu em 99, abdicou em 2000 e tocou fogo no de 1951. Um gênio.
Se ainda houver como eu me proteger dessa massa esvaziadora, eu morrerei orgulhoso da Taça Rio de 51. Mas temo que esse tipo de abordagem, essa exposição da estrela na camisa, essa transformação da realidade de fato, faça simplesmente apagar o que foi certamente o maior momento da historia do Palmeiras.
Rezarei.
Escrevi assim que aconteceu aquele episódio do tal fax da FIFA dizendo que o Palmeiras era mesmo campeão mundial de 1951, o que faria o time colocar uma estrela no peito, 56 anos depois. O texto é do torcedor, por isso os termos ferozes.
Soube hoje que dirigentes de Palmeiras e Santos preparam documento oficial para pedir à CBF que reconheça os Robertões como Campeonato Brasileiro. Justo quando um rival se tornará hexa. Assim como o "documento oficial" pedindo o Mundial partiu do Palmeiras assim que um outro rival o conquistou.
Pequeno, constrangedor, vergonhoso. Meu time há de me matar de vergonha, ainda, com essa mentalidade oficialista.
Mais uma piada pronta estará oferecida para os torcedores rivais. O capital intangível não se torna tangível por vias políticas. O capital intangível é um tesouro inestimável, por assim o ser.
Eis o texto "premonitório":
*************
Estrelas, para mim... para quê?
Que pesquisem, que olhem com o respeito que a conquista merece.
Que saibam, ou então que não interfiram.
Falo dos adversários, mas falo mais aos palmeirenses.
A tristeza é o esvaziamento.
Ando falando com amigos sobre o Mundial de 51. É ou não é? Dane-se!
O pior ao Palmeiras já aconteceu. O Palmeiras conquistou uma taça que, desde 1951, é um tesouro incalculável no patrimônio alviverde. E essa geração imbecil de palmeirenses, que gosta da Mancha Verde e acha o Sérgio um goleiro legal, está a um passo de passar a borracha.
Uma taça histórica. 1951. O povo gritava "campeões do mundo!". Os jornais se desmanchavam em idolatria. Nossos heróis queriam ser reconhecidos, berravam em nossa cara, "nos ouçam!"...passou... 1960... 1970... 1980... 1990... 2000...
Não ouvimos nosso povo, não ouvimos nossos heróis. Decidimos ouvir os políticos da FIFA. Aí mora o problema. O crime. O Palmeiras esvazia uma conquista, e estampará uma estrela para provar essa insanidade.
Passamos 56 anos ignorando os heróis, para dar ouvidos aos engravatados. A geração imbecil transformou o motivo de orgulho em uma discussão de botequim. Triste de quem ousou saber a historia, e a vê ser pisada nas mãos da ignorância maciça.
É a fome. Falta títulos? Que se regurgite os passados. Uma vez campeões mundiais em 1999, os palmeirenses nao teriam "fome" de Mundial, ok? Logo, não buscaríamos esse reconhecimento político, e manteríamos o valor das duas conquistas. Mas na falta de um, estragamos o outro...
Não precisávamos de estrelas na camisa. Não precisávamos de um fax da FIFA. Precisávamos conhecer nosso passado, ouvir nossos avôs, respeitar nossa realidade. Se assim fosse, estaríamos, já há 56 anos, estampando uma estrela moral, de orgulho por defender o país em 1951 - chamando ou não de Mundial. Se assim fosse e nada tivéssemos, seria desse nada que viveríamos, e viveríamos bem também.
Seria tão lindo ter orgulho em dizer "ganhamos a Taça Rio!"... Mas estamos em meio a uma geração que sequer sabe que em 1951 não havia Internet. Só interessa bater boca. Só se gosta do estrago. Dane-se a realidade. Nesse caminho, chega-se à conclusão, "óbvia" para o nível ideológico: campeão mundial e pronto, ponto final.
Eu tinha orgulho da taça Rio. Mas ela virou um bloco rápido de programa barato, virou uma piada do Marco Aurélio Cunha, um sorriso do Citadini. Virou palpitaria. A estrela que ficava escondida e era alviverde e imponente, agora estará exposta, morta de constrangimento, para todo esse mundo de imbecis olharem para ela e iniciarem intermináveis discussões a vácuo.
O Palmeiras está a fazer o mesmo com seus Robertões. Esperará a CBF dizer que é um campeonato nacional, para depois cair na vala comum das discussões vazias? Respeitem a história, mas respeitem de fato! O time é muito mais que apenas tetracampeão nacional. Mas a ignorância leva à hipocrisia, e prefere-se esse tipo de conquista, a "adaptada" ao seu "novo tempo". O "moderno" hoje é chamar de "mundial". Daqui 50 anos, a gente vê o que será moderno, batuta, bacana, e tenta se adequar.
E parabeniza-se Mustafá Contursi pelo "empenho nesse reconhecimento". Mustafá, derrotado no Mundial de 99, que sabe a razão do Palmeiras não jogar o Mundial de 2000, consegue trabalhar em seu terceiro Mundial. Perdeu em 99, abdicou em 2000 e tocou fogo no de 1951. Um gênio.
Se ainda houver como eu me proteger dessa massa esvaziadora, eu morrerei orgulhoso da Taça Rio de 51. Mas temo que esse tipo de abordagem, essa exposição da estrela na camisa, essa transformação da realidade de fato, faça simplesmente apagar o que foi certamente o maior momento da historia do Palmeiras.
Rezarei.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
JORNALISTA COMEÇA AOS 12
1995. Um improvável estádio de futebol aparece na tela da TV, e não dá pra compreender aquela fina faixa de sol que rasga o gramado. Em campo, Palmeiras e Internacional de Limeira estão prontos. É estranho, mas as torcidas, atrás dos gols, são apenas vultos. O som também está misterioso, assim como toda a transmissão. É um som sem som, uma imagem sem imagem. Uma coisa bizarra.
Facilmente explicada, porém.
Não há jogo, na verdade. Nem transmissão. Não nas formas que a gente conhece. Existe uma criança, aos 10, e isso basta. Ela jogou as figurinhas do álbum para o tapete, e com gols e uma bolinha de plástico, estava simulado um jogo de futebol. Um garoto é um mundo. E o jogo imaginário, do campeonato imaginário, nem era o mais importante.
A criança vinha andando agachada lá de fora do quarto, com os olhos cerrados. Como se fosse um efeito especial da TV. O sol que escapa da janela é comentado pelo repórter de campo, representado por uma figurinha aleatória. “os refletores cortam a faixa de sol e fazem uma sombra”, diz ele. Antes e depois do jogo, estas figurinhas alternativas estão posicionadas ao redor do tapete. São os cinegrafistas e os repórteres.
Antes do jogo, a chegada dos times. Uso um guia de ruas. Após o jogo, monto um vestiário com réguas, e faço as entrevistas. E fim.
Um jornalista é jornalista desde os 12 anos. Um relato como esse pode significar que a criança queria é ser jogador de futebol. Mas não. A linha oculta aponta para o prazer periférico do trabalho coadjuvante e ativo, a cobertura, o acompanhamento, os trejeitos e vícios do trabalho – no caso, de uma transmissão futebolística.
Nas Olimpíadas de 2000, ficava acordado esperando um flash de 15 segundos, no meio do intervalo comercial da Band, com uma câmera estática mostrando a paisagem urbana. Não havia nada de mais, mas aquela não-notícia cotidiana me significava mais que os jogos em si. Era a cidade, a vida ao redor do evento.
O jornalista acaba se apegando ao bastidor, ao caminho que ele percorre de forma oculta. Há delícia em ser paralelo ao fato. Tem um fascínio periférico no jornalista, que vem lá de trás. O jornalista tenta traduzir a realidade, dar uma versão atrativa do fato, e isso exige uma visão maior que a dos olhos. Isso é tudo que se faz quando se é menino, dentro do seu mundo que, não fosse tão minuciosa capacidade criativa, estaria fadado ao coisa-alguma, à chatice solitária.
Será que todo menino é um jornalista? Será que as garotas que brincam com a Barbie imaginam os Paparazzis?
A gente tem maneiras simples e educativas de perceber como a presença da imprensa é ativa em nosso corpo coletivo. Desde pequeno a gente decifra as idiossincrasias dos narradores da TV, capta o “Boa Noite” do jornal. Só alguns, entretanto, tratam de, involuntariamente, humanizar essas influências, e projetá-las em seu próprio espaço solitário de um modo que ele vira um espectador de seus próprios experimentos imaginários, ao invés de, como seria o normal, ser o astro, o herói, o imortal de seu enredo de ações criativas. Estes têm grande chance de virar jornalistas.
E daí você consegue explicar como o time que eu torço perdeu para a Inter de Limeira, no tapete do meu quarto, num jogo controlado inteiramente por mim, onde só eu estava interessado. Eu não era o camisa 10 do Palmeiras, nem o árbitro do jogo. Eu era o narrador, e o repórter, e o cinegrafista.
Facilmente explicada, porém.
Não há jogo, na verdade. Nem transmissão. Não nas formas que a gente conhece. Existe uma criança, aos 10, e isso basta. Ela jogou as figurinhas do álbum para o tapete, e com gols e uma bolinha de plástico, estava simulado um jogo de futebol. Um garoto é um mundo. E o jogo imaginário, do campeonato imaginário, nem era o mais importante.
A criança vinha andando agachada lá de fora do quarto, com os olhos cerrados. Como se fosse um efeito especial da TV. O sol que escapa da janela é comentado pelo repórter de campo, representado por uma figurinha aleatória. “os refletores cortam a faixa de sol e fazem uma sombra”, diz ele. Antes e depois do jogo, estas figurinhas alternativas estão posicionadas ao redor do tapete. São os cinegrafistas e os repórteres.
Antes do jogo, a chegada dos times. Uso um guia de ruas. Após o jogo, monto um vestiário com réguas, e faço as entrevistas. E fim.
Um jornalista é jornalista desde os 12 anos. Um relato como esse pode significar que a criança queria é ser jogador de futebol. Mas não. A linha oculta aponta para o prazer periférico do trabalho coadjuvante e ativo, a cobertura, o acompanhamento, os trejeitos e vícios do trabalho – no caso, de uma transmissão futebolística.
Nas Olimpíadas de 2000, ficava acordado esperando um flash de 15 segundos, no meio do intervalo comercial da Band, com uma câmera estática mostrando a paisagem urbana. Não havia nada de mais, mas aquela não-notícia cotidiana me significava mais que os jogos em si. Era a cidade, a vida ao redor do evento.
O jornalista acaba se apegando ao bastidor, ao caminho que ele percorre de forma oculta. Há delícia em ser paralelo ao fato. Tem um fascínio periférico no jornalista, que vem lá de trás. O jornalista tenta traduzir a realidade, dar uma versão atrativa do fato, e isso exige uma visão maior que a dos olhos. Isso é tudo que se faz quando se é menino, dentro do seu mundo que, não fosse tão minuciosa capacidade criativa, estaria fadado ao coisa-alguma, à chatice solitária.
Será que todo menino é um jornalista? Será que as garotas que brincam com a Barbie imaginam os Paparazzis?
A gente tem maneiras simples e educativas de perceber como a presença da imprensa é ativa em nosso corpo coletivo. Desde pequeno a gente decifra as idiossincrasias dos narradores da TV, capta o “Boa Noite” do jornal. Só alguns, entretanto, tratam de, involuntariamente, humanizar essas influências, e projetá-las em seu próprio espaço solitário de um modo que ele vira um espectador de seus próprios experimentos imaginários, ao invés de, como seria o normal, ser o astro, o herói, o imortal de seu enredo de ações criativas. Estes têm grande chance de virar jornalistas.
E daí você consegue explicar como o time que eu torço perdeu para a Inter de Limeira, no tapete do meu quarto, num jogo controlado inteiramente por mim, onde só eu estava interessado. Eu não era o camisa 10 do Palmeiras, nem o árbitro do jogo. Eu era o narrador, e o repórter, e o cinegrafista.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Torcedor é Torcedor
Amigos, eu trabalho com Carnaval, na Organização deste, e, em razão disso, muitas vezes encontro com Presidentes das Escolas de Samba, algumas delas provindas de Torcida Organizada.
Uns minutos atrás, Cosmo Damião Freitas, o Presidente da Escola Torcida Jovem do Santos, sentou-se em minha mesa. Conversava comigo. Viu um diário esportivo na mesa, e abriu a primeira página.
Deu de cara com uma propaganda onde Pelé está com as camisetas de Flamengo e São Paulo.
Cosmo é santista de velhíssima guarda, uma figura única, folclórico, cheio de trejeitos, daqueles personagens raros.
Cosmo começou a sacudir o jornal. Colocou de volta na mesa e passou alguns minutos resmungando, repetidamente, "Aí não, o Negrão é patrimônio do Santos, do-San-Tos! Aí o Negrão tá esculachando, eu vou falar um montão. Quê isso, aí o Negrão pisou na bola..."
Realmente perturbado, não quis ouvir meus comentários. Os ouvidos se fecharam por alguns instantes. Ficou uma fera.
Isto é futebol.
Uns minutos atrás, Cosmo Damião Freitas, o Presidente da Escola Torcida Jovem do Santos, sentou-se em minha mesa. Conversava comigo. Viu um diário esportivo na mesa, e abriu a primeira página.
Deu de cara com uma propaganda onde Pelé está com as camisetas de Flamengo e São Paulo.
Cosmo é santista de velhíssima guarda, uma figura única, folclórico, cheio de trejeitos, daqueles personagens raros.
Cosmo começou a sacudir o jornal. Colocou de volta na mesa e passou alguns minutos resmungando, repetidamente, "Aí não, o Negrão é patrimônio do Santos, do-San-Tos! Aí o Negrão tá esculachando, eu vou falar um montão. Quê isso, aí o Negrão pisou na bola..."
Realmente perturbado, não quis ouvir meus comentários. Os ouvidos se fecharam por alguns instantes. Ficou uma fera.
Isto é futebol.
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O porque das dores
Pedi licença ao meu amigo, mas não fui embora com ele quando acabou o jogo entre Palmeiras e Grêmio. Ele foi, eu fiquei. Preferi sentar e olhar alguma coisa acontecer.
Sei lá, de repente São Marcos corre e se joga nas redes, afinal, só faltou para ele se transformar na bola do jogo. Ou então um jornalista sai correndo pelo gramado dizendo que tem um grampo telefônico bombástico, e os jogos terão que voltar!
Nada, nada disso. Na verdade estava perplexo. Saboreando a tristeza a que me proponho passar cada vez que condiciono minha alegria à vitória ou à derrota. Tentando entender o ato heróico e circense do maior de todos os palmeirenses, algo que não consigo definir, e isso é bom, porquê gosto que meu ídolo seja vulnerável, não tenha pés de barro.
Pois a perfeição divina não me atrai, muito menos a pretensa postura impecável dos homens. Assim como, parafraseando Jimi Hendrix, ser feliz não é uma de minhas prioridades. São Marcos foi um felino arredio e ignorou as ordens de quem acha que é seu dono, e não é bem isso que me alegra. Os gauchos vieram, nos deram um tapa na cara e foram embora, e não é bem isso que me dói.
Fui talvez o último torcedor verde a sair do estádio. Os gauchos ainda estavam lá. Olhei cada pedaço daquele estádio vazio. A torre de iluminação está velha como o placar, a piscina tem uma marola bucólica de fim de tarde, cabecinhas se movem nas cabines de imprensa.
Me ocorreu, alí, que pode ser que eu não vá aos dois jogos que restam no Parque Antarctica. E que, ano que vem, aconteça mesmo do estádio ser fechado para virar uma arena perfeitinha como Luxemburgo, sem cimento pra sentar, sem chuva pra tomar, sem o imponderável com a cara de São Marcos.
Me ocorreu, finalmente, que aqueles poderiam ser meus últimos minutos dentro do Parque Antarctica, da forma que eu o conheci. Nada mais me esperava fora dalí, e eu fiquei por ainda mais tempo, com medo de ser a última vez que veria aquela paisagem. Desculpem, mas eu não tenho coragem de ser a favor da Arena.
Mas tive que me retirar. Indo embora, encostei em um carro que estava de rádio ligado. Me detive a torcer por uma definição alentadora sobre Marcos que saísse da boca de Mauro Beting.
Me ocorreu que ele tem um coração que ama, que torce, e ele está alí, falando, ereto, direto. Me ocorreu que temos a mesma profissão, e falar de forma lúcida e firme naquela hora, só com treino mesmo. Me ocorreu também que tínhamos um amigo em comum, que morreu, e que torcia pelo mesmo time, e não teve um só jogo nesse campeonato que eu não tenha lembrado dele.
Descobri, então, porque fiquei tão devastado em constatar que meu time, nosso time, não será o Campeão Brasileiro.
Sei lá, de repente São Marcos corre e se joga nas redes, afinal, só faltou para ele se transformar na bola do jogo. Ou então um jornalista sai correndo pelo gramado dizendo que tem um grampo telefônico bombástico, e os jogos terão que voltar!
Nada, nada disso. Na verdade estava perplexo. Saboreando a tristeza a que me proponho passar cada vez que condiciono minha alegria à vitória ou à derrota. Tentando entender o ato heróico e circense do maior de todos os palmeirenses, algo que não consigo definir, e isso é bom, porquê gosto que meu ídolo seja vulnerável, não tenha pés de barro.
Pois a perfeição divina não me atrai, muito menos a pretensa postura impecável dos homens. Assim como, parafraseando Jimi Hendrix, ser feliz não é uma de minhas prioridades. São Marcos foi um felino arredio e ignorou as ordens de quem acha que é seu dono, e não é bem isso que me alegra. Os gauchos vieram, nos deram um tapa na cara e foram embora, e não é bem isso que me dói.
Fui talvez o último torcedor verde a sair do estádio. Os gauchos ainda estavam lá. Olhei cada pedaço daquele estádio vazio. A torre de iluminação está velha como o placar, a piscina tem uma marola bucólica de fim de tarde, cabecinhas se movem nas cabines de imprensa.
Me ocorreu, alí, que pode ser que eu não vá aos dois jogos que restam no Parque Antarctica. E que, ano que vem, aconteça mesmo do estádio ser fechado para virar uma arena perfeitinha como Luxemburgo, sem cimento pra sentar, sem chuva pra tomar, sem o imponderável com a cara de São Marcos.
Me ocorreu, finalmente, que aqueles poderiam ser meus últimos minutos dentro do Parque Antarctica, da forma que eu o conheci. Nada mais me esperava fora dalí, e eu fiquei por ainda mais tempo, com medo de ser a última vez que veria aquela paisagem. Desculpem, mas eu não tenho coragem de ser a favor da Arena.
Mas tive que me retirar. Indo embora, encostei em um carro que estava de rádio ligado. Me detive a torcer por uma definição alentadora sobre Marcos que saísse da boca de Mauro Beting.
Me ocorreu que ele tem um coração que ama, que torce, e ele está alí, falando, ereto, direto. Me ocorreu que temos a mesma profissão, e falar de forma lúcida e firme naquela hora, só com treino mesmo. Me ocorreu também que tínhamos um amigo em comum, que morreu, e que torcia pelo mesmo time, e não teve um só jogo nesse campeonato que eu não tenha lembrado dele.
Descobri, então, porque fiquei tão devastado em constatar que meu time, nosso time, não será o Campeão Brasileiro.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
O meu Circo
*O desabafo não é meu. Ou melhor, não é só meu. Tenho certeza.
Me desculpem os Flinstones, Tom & Jerry. Me desculpe, Chaves.
Fred é atacante do América Mineiro, Tom e Jerry jogaram no santos, Chaves é um mexicano...centro-avante.
Eu via como me enxergavam na escola. Eu era impotente. Hoje até a namorada fala que sou doente. Mas a culpa não é minha. E não pense, também, que me é um peso. Eu sei reagir, e jogar na sua cara que a Xuxa e a Eliana não te fizeram uma pessoa mais culta ou legal do que eu.
Gotham City, não sei onde fica. Springfield, também não, mas é nos Estados Unidos. Você sabia que as madeiras da quadra do Boston Celtics são colocadas em formas de quadradinhos, ao contrário do convencional, com tábuas retas e longas? E daí onde fica Gotham City?
Virei um atlas. Acham que eu leio muitos livros, só porque eu sei a capital da Iugoslávia, da Hungria, da Áustria - esse povo nunca ouviu falar de Rapid Viena. Me acham muito culto por saber a ordem das cores da bandeira da Bélgica, da Romênia, da Bolívia, mas ora, onde estavam estes em junho de 1994? Não viram a tabela da Copa?
Aliás, será que é absurdo contar que a abertura da Copa de 94 foi num 17 de junho? Ué, pra mim absurdo é o Pica-Pau colocar a mão nas costas e tirar, do nada, uma marreta, uma bomba, uma granada. Absurdo é colecionar um álbum de figurinhas, assistir um jogo, e não se interessar com a tabela, com as cores, com as histórias. Absurdo é assistir os Jetsons e não procurar saber quem foi o desenhista, o roteirista.
É uma sina ser chamado de obsessivo, e vai ser assim. Mas não sou. Sou só uma vítima. Ou um privilegiado. Na minha TV não passava a Xuxa, mas a ESPN, e não era eu o dono do controle remoto. No meu vídeo-game não tinha Mario Bros matando tartarugas com os pés, mas tinha FIFA Soccer, e não fui eu quem comprou os jogos.
Eu não posso renegar o que a vida fez de mim. Entre o excêntrico e o nerd existe aquele que foi levado, seduzido, e se tornou submisso diante das próprias escolhas. Não fui ao circo na infância. Ao estádio de futebol, ia toda semana. A culpa não é minha.
Me desculpem os Flinstones, Tom & Jerry. Me desculpe, Chaves.
Fred é atacante do América Mineiro, Tom e Jerry jogaram no santos, Chaves é um mexicano...centro-avante.
Eu via como me enxergavam na escola. Eu era impotente. Hoje até a namorada fala que sou doente. Mas a culpa não é minha. E não pense, também, que me é um peso. Eu sei reagir, e jogar na sua cara que a Xuxa e a Eliana não te fizeram uma pessoa mais culta ou legal do que eu.
Gotham City, não sei onde fica. Springfield, também não, mas é nos Estados Unidos. Você sabia que as madeiras da quadra do Boston Celtics são colocadas em formas de quadradinhos, ao contrário do convencional, com tábuas retas e longas? E daí onde fica Gotham City?
Virei um atlas. Acham que eu leio muitos livros, só porque eu sei a capital da Iugoslávia, da Hungria, da Áustria - esse povo nunca ouviu falar de Rapid Viena. Me acham muito culto por saber a ordem das cores da bandeira da Bélgica, da Romênia, da Bolívia, mas ora, onde estavam estes em junho de 1994? Não viram a tabela da Copa?
Aliás, será que é absurdo contar que a abertura da Copa de 94 foi num 17 de junho? Ué, pra mim absurdo é o Pica-Pau colocar a mão nas costas e tirar, do nada, uma marreta, uma bomba, uma granada. Absurdo é colecionar um álbum de figurinhas, assistir um jogo, e não se interessar com a tabela, com as cores, com as histórias. Absurdo é assistir os Jetsons e não procurar saber quem foi o desenhista, o roteirista.
É uma sina ser chamado de obsessivo, e vai ser assim. Mas não sou. Sou só uma vítima. Ou um privilegiado. Na minha TV não passava a Xuxa, mas a ESPN, e não era eu o dono do controle remoto. No meu vídeo-game não tinha Mario Bros matando tartarugas com os pés, mas tinha FIFA Soccer, e não fui eu quem comprou os jogos.
Eu não posso renegar o que a vida fez de mim. Entre o excêntrico e o nerd existe aquele que foi levado, seduzido, e se tornou submisso diante das próprias escolhas. Não fui ao circo na infância. Ao estádio de futebol, ia toda semana. A culpa não é minha.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Pare de me ler!
É, isso mesmo. Deixe de me ler, e aponte seus olhos para o maior cronista da história do futebol.
Nelson Rodrigues
AQUI , cronicas do livro "O Berro Impresso das Manchetes".
Simplesmente não há nada melhor para ler do que Nelson Rodrigues.
Nelson Rodrigues
AQUI , cronicas do livro "O Berro Impresso das Manchetes".
Simplesmente não há nada melhor para ler do que Nelson Rodrigues.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Azulão não é Bangu, pafêro
Quando terminei de ler o livro de Flávio Gomes, chamado O Boto do Reno, onde ele conta sobre suas viagens pelo mundo acompanhando a fórmula-1, agradeci o livro (quem não fala com o livro?), pela sua generosidade em me fazer sentir-me viajante. Ter passaporte, dar uma de Dunga e convocar as peças mais importantes para a seleção de coisas de sua mala, ser chique.
Tenho dúvidas sobre a resistência do meu humor para viagens duradouras demais. Gosto de escrever bastante, de pensar, de escrever por dentro (escrevo com o cérebro, leio com o cérebro, e jogo fora em seguida), acho que me dou bem se viajar sozinho. Fazer o quê, meus poucos anos de vida, até agora, não me proporcionaram relevantes ações turísticas, ainda que o livro nos transporte de alguma forma.
Em 2001, foi a primeira vez que saí de São Paulo. Passei 4 dias no Rio de Janeiro. Um inferno. Fiquei perturbado em ter que conviver com carros cujas placas começam com K, L, M. Aquilo era um estupro à minha rotina. Peguei um congestionamento num viaduto nas Laranjeiras, que me fez sentir em São Paulo, apesar das placas. Um carioca vendia biscoitos Globo entre os carros, e comi, claro, biscoito Globo é tão tradicional quanto o Maracanã.
Essa coisa de tradição é complicada. Na praia, quis tomar o tal Chá Mate Leão, ou Limão, sei lá, o chá tradicional. O vendedor não tinha (apesar de gritar "Olha o Mate, mate leããão, ou limããão"), e só no meio de minha degustação eu notei que estava tomando um GuaraPlus. E, claro, GuaraPlus não tem nada a ver com o que eu queria. Cariocas sabem persuadir.
Dormia na Ilha do Governador, e, em quatro dias, estive em todo canto do Rio. Na Ilha, pra tomar banho, meu anfitrião apareceu com uma lista de instruções para ligar o botão, ou "butão". Jamais ouvira falar naquilo. É um tipo de cofre de bronze que fica na parede do banheiro, e, com alguma técnica, você o aciona, e só assim a água do seu banho fica quente.
Perplexo, eu até que tentei. Odeio banho frio. Odeio. Mas o tal aquecedor não ligava, fazia ruídos estranhos, e não consegui ligá-lo. Temi pela morte antes da missão ser cumprida. Ok, fazia muito calor, estávamos em dezembro, mas o banho quente é um item indispensável em minha vida de idiossincrasias.
O Rio é legal. Comi uma pizza maravilhosa, a Coca-Cola é melhor, e a polícia toma conta. Fui querer ver o cristo redentor, às 3 horas da manhã. Inadvertidamente, o Athos preto foi enfiado nas ruelas do barranco que leva ao cristo. Não sei como não morri, pois é claro que o cristo estava fechado, é óbvio que minhas opções de caminho eram idiotamente aleatórias, e, normal, dei de cara com uma turma de rapazes nada amistosos, uma cena de filme, de um Cidade de Deus. Eles tiveram dó, fizeram gracinhas, sugeriram uma volta no dia seguinte. Pude-me ver sendo carbonizado. Fuga.
A polícia cuida, claro. Um Hyundai sinistro no morro do cristo, de madrugada? Claro, no ato, entraram em ação, pararam o carro, pedindo documentos, gentilmente munidos de metralhadoras. Abre-se o porta-malas. Há um carregamento. De bolsas de couro, naturalmente, afinal era o motivo da viagem, uma entrega de bolsas de couro para o natal. Bolsas abertas. Não se acha o pó nem o pacote, nem a pedra. Não se acha explicação plausível para subir no morro. Sei lá, saí vivo.
Mas foi uma viagem bacana. No carro, tinham duas fitas. Legião Urbana ao vivo, e Furacão 2000, essa só para o caminho de volta - lembrança turística da Cidade Maravilhosa. Resumidamente, o silêncio era melhor. Estávamos às vésperas da Final do Brasileirão de 2001, e foi um choque aos cariocas saberem que eu e boa parte dos paulistas odiávamos o São Caetano, e queríamos mais é que o Furacão faturasse o título. "Azulão não é Bangu, pafêro!".
Foi nessa viagem, aliás, que ouvi sobre Robinho pela primeira vez na vida. Um amigo cujo filho era zagueiro dos juniores do Botafogo, contava sobre um amistoso, sei lá se era amistoso, jogo de juniores pra mim é sempre amistoso, em que o Santos veio ao Rio. "Um neguinho, rapaz, do Santos. Robinho. O que ele fazia com a bola... eu fiquei com dó do meu filho". 12 meses depois, o neguinho era Campeão Brasileiro.
Eu moro em São Paulo, e sou crítico da cidade. Não gosto, Não consigo vê-la muito bem. Sou míope para ela. Talvez me falte o olhar turista para com ela. Foi agora, em 2008, que estive hospedado pela primeira vez em um hotel.
Trabalho com carnaval, e, nos dias da festa de Momo, fiquei num espaçoso quarto do lendário hotel San Raphael, no centro. Espetáculo. Me embananei pra preencher a ficha. Não conseguia abrir a porta. Entrei, ufa, e não sabia como ligar a luz. Pensei, tentei, e constatei que tinha que enfiar o cartãozinho no lugar para enfiar o cartãozinho. Enfiei, e a luz ligou. E a TV ligou! Que susto. Que silêncio amedrontador, quebrado por Antero Greco comentando amenidades na telinha.
Vamos lá, relaxe, você está num hotel! Vou tomar um banho. Vejo uma banheira. Meu primeiro banho de banheira? Claro. Não acho o troço para obstruir o ralo. Improviso uma meia. Não consigo ligar o chuveiro, nem a mangueira. A maçaneta da água, ou interruptor, não sei como se chama o botão que faz ligar o chuveiro, é de uma complexidade irritante, e, quando concluo que devo puxar pra trás, puxo. E vem um jato de água gelado na minha cara. Forte, muito forte. Agora, onde esquenta essa água? Nunca soube. Odeio banho frio, abortei minha banheira. Escovei o dente numa pia de água quente, revoltante.
Chega meu parceiro de quarto, bate na porta e eu grito que ela está aberta. Descubro então que porta de hotel não se abre por fora. Acordo e demoro quase 10 minutos para descobrir que é na tal sobreloja que se come o café da manhã. Procurei discretamente uma balança para pesar minha janta, achando que era por quilo. Ri da cara de um amigo que quis jantar ás 4 da madrugada, olha olha, imagina se a cozinha do hotel está aberta. Não dei gorjeta nem deixei carregarem minha mala. Fui embora duas vezes sem deixar a chave na portaria. Um completo asno, em todos os aspectos de todas as atividades que envolvem um hóspede de hotel.
Saída da cidade, hospedagem em hotel, viagem de avião. Não faz muito tempo, fui pra Brasília e encarei uma viagem aérea. Já numa época em que adquiri certo medo por meios de transporte, coisas da vida. 900 por hora, 10 mil metros de altitude, 30 graus negativos do lado de fora do avião. E eu achando o maior barato sobrevoar Araxá, paraíso hospitaleiro onde do alto se avista o sol primeiro, segundo o enredo da Beija-Flor em 2000, eu acho.
4 dias usando terno e gravata e uma perturbadora ausência de relevo, sei lá, qualquer montanhazinha, uma escada que fosse já me era um alento. Tempo seco, o que é um chavão brasiliente, e a aprendizagem-mestra de que, em Brasília, você precisa apenas conhecer o seguinte: eixinho, eixão, tesourinha. Com eixinho, eixão e tesourinha, você se dá bem, chega onde for. A não ser que chova, pois nesse caso as tesourinhas perigam de alagar. Mal deu pra curtir, foi trabalho a beça, mas, enfim, é outra cidade, outra arquitetura, outra fala, outro jeito de apertar a mão e outra forma do garçon colocar coca-cola no seu copo. Eu detesto isso, o preço da coca-cola que eu compro contém o meu prazer de abrir a lata e colocar coca no copo. Se alguém faz isso por mim, quero desconto na minha coca-cola.
Faltam poucas coisas a se conhecer nessa vida, não? Meu próximo destino deve ser Arkansas, nos Estados Unidos. Alguma pessoa desse estado entrou no meu blog 29 vezes nos últimos 35 dias, e eu morro de curiosidade de saber quem é. Não há nenhuma, absolutamente nenhuma pista de quem seja, mas eu o tenho como um amigo. Imagino ele acordando no Arkansas, tomando aquele café-da-manhã típico do Arkansas, ligando seu computador comprado no Arkansas, e timbusca, acessando meu blog.
Esse rapaz, assim como o trio de colombianos que conheci no Parque Antarctica outro dia, fazem parte de meu pacote de intercâmbios.
Tenho dúvidas sobre a resistência do meu humor para viagens duradouras demais. Gosto de escrever bastante, de pensar, de escrever por dentro (escrevo com o cérebro, leio com o cérebro, e jogo fora em seguida), acho que me dou bem se viajar sozinho. Fazer o quê, meus poucos anos de vida, até agora, não me proporcionaram relevantes ações turísticas, ainda que o livro nos transporte de alguma forma.
Em 2001, foi a primeira vez que saí de São Paulo. Passei 4 dias no Rio de Janeiro. Um inferno. Fiquei perturbado em ter que conviver com carros cujas placas começam com K, L, M. Aquilo era um estupro à minha rotina. Peguei um congestionamento num viaduto nas Laranjeiras, que me fez sentir em São Paulo, apesar das placas. Um carioca vendia biscoitos Globo entre os carros, e comi, claro, biscoito Globo é tão tradicional quanto o Maracanã.
Essa coisa de tradição é complicada. Na praia, quis tomar o tal Chá Mate Leão, ou Limão, sei lá, o chá tradicional. O vendedor não tinha (apesar de gritar "Olha o Mate, mate leããão, ou limããão"), e só no meio de minha degustação eu notei que estava tomando um GuaraPlus. E, claro, GuaraPlus não tem nada a ver com o que eu queria. Cariocas sabem persuadir.
Dormia na Ilha do Governador, e, em quatro dias, estive em todo canto do Rio. Na Ilha, pra tomar banho, meu anfitrião apareceu com uma lista de instruções para ligar o botão, ou "butão". Jamais ouvira falar naquilo. É um tipo de cofre de bronze que fica na parede do banheiro, e, com alguma técnica, você o aciona, e só assim a água do seu banho fica quente.
Perplexo, eu até que tentei. Odeio banho frio. Odeio. Mas o tal aquecedor não ligava, fazia ruídos estranhos, e não consegui ligá-lo. Temi pela morte antes da missão ser cumprida. Ok, fazia muito calor, estávamos em dezembro, mas o banho quente é um item indispensável em minha vida de idiossincrasias.
O Rio é legal. Comi uma pizza maravilhosa, a Coca-Cola é melhor, e a polícia toma conta. Fui querer ver o cristo redentor, às 3 horas da manhã. Inadvertidamente, o Athos preto foi enfiado nas ruelas do barranco que leva ao cristo. Não sei como não morri, pois é claro que o cristo estava fechado, é óbvio que minhas opções de caminho eram idiotamente aleatórias, e, normal, dei de cara com uma turma de rapazes nada amistosos, uma cena de filme, de um Cidade de Deus. Eles tiveram dó, fizeram gracinhas, sugeriram uma volta no dia seguinte. Pude-me ver sendo carbonizado. Fuga.
A polícia cuida, claro. Um Hyundai sinistro no morro do cristo, de madrugada? Claro, no ato, entraram em ação, pararam o carro, pedindo documentos, gentilmente munidos de metralhadoras. Abre-se o porta-malas. Há um carregamento. De bolsas de couro, naturalmente, afinal era o motivo da viagem, uma entrega de bolsas de couro para o natal. Bolsas abertas. Não se acha o pó nem o pacote, nem a pedra. Não se acha explicação plausível para subir no morro. Sei lá, saí vivo.
Mas foi uma viagem bacana. No carro, tinham duas fitas. Legião Urbana ao vivo, e Furacão 2000, essa só para o caminho de volta - lembrança turística da Cidade Maravilhosa. Resumidamente, o silêncio era melhor. Estávamos às vésperas da Final do Brasileirão de 2001, e foi um choque aos cariocas saberem que eu e boa parte dos paulistas odiávamos o São Caetano, e queríamos mais é que o Furacão faturasse o título. "Azulão não é Bangu, pafêro!".
Foi nessa viagem, aliás, que ouvi sobre Robinho pela primeira vez na vida. Um amigo cujo filho era zagueiro dos juniores do Botafogo, contava sobre um amistoso, sei lá se era amistoso, jogo de juniores pra mim é sempre amistoso, em que o Santos veio ao Rio. "Um neguinho, rapaz, do Santos. Robinho. O que ele fazia com a bola... eu fiquei com dó do meu filho". 12 meses depois, o neguinho era Campeão Brasileiro.
Eu moro em São Paulo, e sou crítico da cidade. Não gosto, Não consigo vê-la muito bem. Sou míope para ela. Talvez me falte o olhar turista para com ela. Foi agora, em 2008, que estive hospedado pela primeira vez em um hotel.
Trabalho com carnaval, e, nos dias da festa de Momo, fiquei num espaçoso quarto do lendário hotel San Raphael, no centro. Espetáculo. Me embananei pra preencher a ficha. Não conseguia abrir a porta. Entrei, ufa, e não sabia como ligar a luz. Pensei, tentei, e constatei que tinha que enfiar o cartãozinho no lugar para enfiar o cartãozinho. Enfiei, e a luz ligou. E a TV ligou! Que susto. Que silêncio amedrontador, quebrado por Antero Greco comentando amenidades na telinha.
Vamos lá, relaxe, você está num hotel! Vou tomar um banho. Vejo uma banheira. Meu primeiro banho de banheira? Claro. Não acho o troço para obstruir o ralo. Improviso uma meia. Não consigo ligar o chuveiro, nem a mangueira. A maçaneta da água, ou interruptor, não sei como se chama o botão que faz ligar o chuveiro, é de uma complexidade irritante, e, quando concluo que devo puxar pra trás, puxo. E vem um jato de água gelado na minha cara. Forte, muito forte. Agora, onde esquenta essa água? Nunca soube. Odeio banho frio, abortei minha banheira. Escovei o dente numa pia de água quente, revoltante.
Chega meu parceiro de quarto, bate na porta e eu grito que ela está aberta. Descubro então que porta de hotel não se abre por fora. Acordo e demoro quase 10 minutos para descobrir que é na tal sobreloja que se come o café da manhã. Procurei discretamente uma balança para pesar minha janta, achando que era por quilo. Ri da cara de um amigo que quis jantar ás 4 da madrugada, olha olha, imagina se a cozinha do hotel está aberta. Não dei gorjeta nem deixei carregarem minha mala. Fui embora duas vezes sem deixar a chave na portaria. Um completo asno, em todos os aspectos de todas as atividades que envolvem um hóspede de hotel.
Saída da cidade, hospedagem em hotel, viagem de avião. Não faz muito tempo, fui pra Brasília e encarei uma viagem aérea. Já numa época em que adquiri certo medo por meios de transporte, coisas da vida. 900 por hora, 10 mil metros de altitude, 30 graus negativos do lado de fora do avião. E eu achando o maior barato sobrevoar Araxá, paraíso hospitaleiro onde do alto se avista o sol primeiro, segundo o enredo da Beija-Flor em 2000, eu acho.
4 dias usando terno e gravata e uma perturbadora ausência de relevo, sei lá, qualquer montanhazinha, uma escada que fosse já me era um alento. Tempo seco, o que é um chavão brasiliente, e a aprendizagem-mestra de que, em Brasília, você precisa apenas conhecer o seguinte: eixinho, eixão, tesourinha. Com eixinho, eixão e tesourinha, você se dá bem, chega onde for. A não ser que chova, pois nesse caso as tesourinhas perigam de alagar. Mal deu pra curtir, foi trabalho a beça, mas, enfim, é outra cidade, outra arquitetura, outra fala, outro jeito de apertar a mão e outra forma do garçon colocar coca-cola no seu copo. Eu detesto isso, o preço da coca-cola que eu compro contém o meu prazer de abrir a lata e colocar coca no copo. Se alguém faz isso por mim, quero desconto na minha coca-cola.
Faltam poucas coisas a se conhecer nessa vida, não? Meu próximo destino deve ser Arkansas, nos Estados Unidos. Alguma pessoa desse estado entrou no meu blog 29 vezes nos últimos 35 dias, e eu morro de curiosidade de saber quem é. Não há nenhuma, absolutamente nenhuma pista de quem seja, mas eu o tenho como um amigo. Imagino ele acordando no Arkansas, tomando aquele café-da-manhã típico do Arkansas, ligando seu computador comprado no Arkansas, e timbusca, acessando meu blog.
Esse rapaz, assim como o trio de colombianos que conheci no Parque Antarctica outro dia, fazem parte de meu pacote de intercâmbios.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Vida de Libertadores
-Mas você vai no jogo, nessa chuva???
-Sim! Nessa chuva! Não é fantástico?
Estão subvertendo valores. Não quem dá a resposta, mas quem faz a pergunta. Vivo em uma cidade onde, cada vez mais, só é permitido trabalhar, sério e sóbrio de preferência, sem floreios, sem romantismo, sem papete-com-meia. Começa-se a acreditar que ir ao estádio de futebol é mesmo uma via crucis, e o esforço é para se adequar à cidade: não se divirta.
Aí, ontem, Palmeiras e Áncash jogaram. Jogo internacional, inédito. Vem os perseguidores do mundo ideal sem essência, e te dizem que: o horário é ruim; o jogo não vale nada; o time do Palmeiras é reserva; tá chovendo; vai passar na TV; violência, é antes do quinto dia útil, doença de chagas, a Lua em Saturno.
Pois os que pensam isso são chatos objetivistas insensatos. Quer ver? Dou o lado otimista da moeda: ingresso com desconto; estréia do grande Roque Júnior; chuva (se não acha isso um ponto favorável, espere a Arena ficar pronta, e vá de terno e gravata ao estádio); Primeiro jogo internacional após anos; Chance de abraçar o time por assumir a liderança nacional depois de anos; em caso de jogo ruim sem gols, pelo menos teriam os penaltys.
Esse mal é moderno. Querem do futebol uma definição que não se encontra assim, sem o coração e o peso das coisas relativizadas. Deterministas, querem muitas seguranças, querem aconchego, não se lembram mais dos conflitos de adolescente que são, nos fins, sempre tão saborosos. Estão atrás de certezas, atrás de jogos de seis pontos, caçadores do importante "de fato" - como se as coisas realmente importantes fossem pautadas assim, com tons oficialistas, com tinta pragmática.
Não valia nada? Valia menos ainda ficar em casa. Não era uma Libertadores? A questão é tu te libertares da burocrata idéia de que o bom só existe em condições ideais de clima e temperatura, em situação de gorda recompensa, de vasta repercussão.
A essência do futebol está escondida nessas escuras e desinteressadas noites. Curtir o time é o importante, mas curtir a ti próprio é a essência. Ser irresponsável, molhar-se, passar frio, correr pelo ônibus final. Isso é sair da linha normal, porém nunca sair desta normalidade me soa como triste auto-sabotagem.
A gente acaba acreditando demais e chega a hiperbolizar a má realidade de nosso futebol e nossos estádios. Isso não é primeiro plano, quando em questão está a chance de tu fazeres de uma noite de "inhaca", uma noite que lembrarás daqui muitos anos. A gente também acaba dando valores e signos demais ao jogo A ou B.
E se esquece que fazer algumas coisas por mera liberdade e otimismo vale mais que qualquer campeonato de qualquer lugar.
-Sim! Nessa chuva! Não é fantástico?
Estão subvertendo valores. Não quem dá a resposta, mas quem faz a pergunta. Vivo em uma cidade onde, cada vez mais, só é permitido trabalhar, sério e sóbrio de preferência, sem floreios, sem romantismo, sem papete-com-meia. Começa-se a acreditar que ir ao estádio de futebol é mesmo uma via crucis, e o esforço é para se adequar à cidade: não se divirta.
Aí, ontem, Palmeiras e Áncash jogaram. Jogo internacional, inédito. Vem os perseguidores do mundo ideal sem essência, e te dizem que: o horário é ruim; o jogo não vale nada; o time do Palmeiras é reserva; tá chovendo; vai passar na TV; violência, é antes do quinto dia útil, doença de chagas, a Lua em Saturno.
Pois os que pensam isso são chatos objetivistas insensatos. Quer ver? Dou o lado otimista da moeda: ingresso com desconto; estréia do grande Roque Júnior; chuva (se não acha isso um ponto favorável, espere a Arena ficar pronta, e vá de terno e gravata ao estádio); Primeiro jogo internacional após anos; Chance de abraçar o time por assumir a liderança nacional depois de anos; em caso de jogo ruim sem gols, pelo menos teriam os penaltys.
Esse mal é moderno. Querem do futebol uma definição que não se encontra assim, sem o coração e o peso das coisas relativizadas. Deterministas, querem muitas seguranças, querem aconchego, não se lembram mais dos conflitos de adolescente que são, nos fins, sempre tão saborosos. Estão atrás de certezas, atrás de jogos de seis pontos, caçadores do importante "de fato" - como se as coisas realmente importantes fossem pautadas assim, com tons oficialistas, com tinta pragmática.
Não valia nada? Valia menos ainda ficar em casa. Não era uma Libertadores? A questão é tu te libertares da burocrata idéia de que o bom só existe em condições ideais de clima e temperatura, em situação de gorda recompensa, de vasta repercussão.
A essência do futebol está escondida nessas escuras e desinteressadas noites. Curtir o time é o importante, mas curtir a ti próprio é a essência. Ser irresponsável, molhar-se, passar frio, correr pelo ônibus final. Isso é sair da linha normal, porém nunca sair desta normalidade me soa como triste auto-sabotagem.
A gente acaba acreditando demais e chega a hiperbolizar a má realidade de nosso futebol e nossos estádios. Isso não é primeiro plano, quando em questão está a chance de tu fazeres de uma noite de "inhaca", uma noite que lembrarás daqui muitos anos. A gente também acaba dando valores e signos demais ao jogo A ou B.
E se esquece que fazer algumas coisas por mera liberdade e otimismo vale mais que qualquer campeonato de qualquer lugar.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Eu e os colombianos
No último domingo, tive o prazer de conhecer uma turma de três amigos colombianos. Andrés, Heitor e a menina, não sei o nome. Dei o acaso de sentar do lado deles, na arquibancada do Parque Antarctica, para ver Palmeiras e Vasco se enfrentarem.
O trio está no Brasil de férias, e quis viajar para São Paulo de forma meramente turística. Eu me recordei de outro jogo que fui nesse ano, em que o senhor ao meu lado pegou um avião de Cuiabá apenas para ver o jogo. Nosso futebol tem um potencial jamais explorado.
Todos eles torciam pelo Deportivo Cali, de forma que a visita ao campo do Palmeiras tinha uma ponta de masoquismo. Foi naquela "cancha" que o "Cáli" perdeu a Libertadores de 1999. Ficaram sorridentes por eu saber o nome do estádio deles. Ficaram extasiados quando eu escalei o Deportivo Cali de 99. Eu fiquei feliz também em saber do prestígio palmeirense por lá.
Eles devem achar que os brasileiros os ignoram futebolisticamente - como nós, brasileiros, achamos que os europeus fazem conosco. E não estão lá muito errados, infelizmente.
Me contaram sobre a cidade, sobre a história dos clubes, sobre tráfico, concurso de Miss, Higuita, Gavíria (ex-lateral morto com um raio em um treino do Cáli), Córdoba, Dudamel, Asprilla, Brasileirão.
A garota se permite conversar e se comportar sem que os homens ao redor se sentissem estupradores. Deve ser um mal paulistano, esse, das mulheres partirem do princípio que todo homem é um tarado. Os garotos foram simpáticos demais, riram dos momentos de nervoso, quiseram aprender o hino, e não entendiam a ausência de Denílson. "ele não é mais o mesmo", eu dizia.
Fui embora com os sentidos mais atentos. De que sou paulistano e aqui você deve ter noções básicas de como ser um guia turístico - pois esta cidade é, afinal, turística. E de que nosso futebol realmente é muito mal explorado. Judiado.
O trio está no Brasil de férias, e quis viajar para São Paulo de forma meramente turística. Eu me recordei de outro jogo que fui nesse ano, em que o senhor ao meu lado pegou um avião de Cuiabá apenas para ver o jogo. Nosso futebol tem um potencial jamais explorado.
Todos eles torciam pelo Deportivo Cali, de forma que a visita ao campo do Palmeiras tinha uma ponta de masoquismo. Foi naquela "cancha" que o "Cáli" perdeu a Libertadores de 1999. Ficaram sorridentes por eu saber o nome do estádio deles. Ficaram extasiados quando eu escalei o Deportivo Cali de 99. Eu fiquei feliz também em saber do prestígio palmeirense por lá.
Eles devem achar que os brasileiros os ignoram futebolisticamente - como nós, brasileiros, achamos que os europeus fazem conosco. E não estão lá muito errados, infelizmente.
Me contaram sobre a cidade, sobre a história dos clubes, sobre tráfico, concurso de Miss, Higuita, Gavíria (ex-lateral morto com um raio em um treino do Cáli), Córdoba, Dudamel, Asprilla, Brasileirão.
A garota se permite conversar e se comportar sem que os homens ao redor se sentissem estupradores. Deve ser um mal paulistano, esse, das mulheres partirem do princípio que todo homem é um tarado. Os garotos foram simpáticos demais, riram dos momentos de nervoso, quiseram aprender o hino, e não entendiam a ausência de Denílson. "ele não é mais o mesmo", eu dizia.
Fui embora com os sentidos mais atentos. De que sou paulistano e aqui você deve ter noções básicas de como ser um guia turístico - pois esta cidade é, afinal, turística. E de que nosso futebol realmente é muito mal explorado. Judiado.
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