
Não adiantaria dizer ao torcedor da Portuguesa que é assim mesmo, que há uma nova realidade no futebol brasileiro, e nessa realidade planejamento, profissionalismo e estrutura são mais do que meros termos retóricos e vazios.
Tampouco ganharei a simpatia do lusitano se avaliar a Portuguesa como acima dessa mentalidade perfeitinha do futebol atual. A Lusa é errante, é tranco-e-barrancosa, isso é nobre, mas "e daí?", vai me responder o rubro-verde.
Às vezes noto que o rubro-verde não se importa nem com argumentos prós, muito menos com contras. Ele é à prova de argumentos.
Hoje são só 20 times na Elite, então é difícil se manter. "E o Barueri pode ser um desses?" Ora, o Barueri montou uma estrutura compromissada com políticos, e já faz alguns anos. "Mas doze anos atrás a Portuguesa foi finalista do Brasileirão!".
O fato é que não dá para consolar um lusitano. Não tem caminho. Esse time tem uma pinta única, vai na contra-mão da cultura brasileira que reza que "quanto menos torcida, mais vergonha você deve ter de seu próprio time". A Portuguesa é colônia. É cheia de piadas prontas, de cagadas, de mesquinharias. E é incapaz de causar antipatia nacional.
Mas o torcedor da Lusa muito menos vai ficar satisfeito se eu disser que vou às vezes ao Canindé, e que são muitos os não-lusitanos que torcem "um pouquinho" pelo time. Eu mesmo, torço. E não é porque os acho menores, inofensivos, café-com-leite. Na verdade, eu não sei porquê. O Canindé me relaxa, a Portuguesa representa bem o futebol que eu amo, mística e à flor da pele.
Esse torcedor da Lusa é engraçado. É mesmo um leão. Eu sempre os comparei a um siri. Valente como é, se o siri tivesse o tamanho de um tubarão, não haveria baleia para tirar farinha com ele. E nessa cidade que sufoca tudo que não é "maior", existir a Lusa, na Marginal e à margem das grandes manchetes, beira o inacreditável.
Eu tenho e tive amigos portugueses. Um faleceu, outro vive nas bancadas, outro até foi da assessoria de imprensa. Tive um primo que jogou lá, nos juniores, e ele ficou 14 meses sem receber salário. Não tenho raiva. Entendo a Lusa. Entendo o futebol brasileiro. Entendo que alguns cartolas que passaram pelo Canindé nunca souberam interpretar esse time, e o rubro-verde há de pagar por isso por mais alguns anos.
Eles estão outra vez na Segunda Divisão. Por mais previsível que fosse, é triste dialogar com meu amigo. No primeiro minuto, me senti constrangido, penalizado, horrorizado com o tom de sua voz, com a dor que ele estava sentindo.
Mas no segundo minuto, assim, naturalmente, a coisa se inverteu. Entendi porque não há nenhuma maneira de tentar consolar um torcedor da Portuguesa: apenas não é preciso.
Era mais fácil ele me convencer que ir pra Série-B é uma boa do que eu convencê-lo de qualquer coisa. Inclusive, eu saí do papo convencido que, se a Lusinha vai fazer falta na A, por outro lado nem vai doer estar na B, preencher a B, valorizar a B, que a cada ano está mais forte. A Portuguesa já passou, terna, por coisa muito pior. O torcedor canindeísta há de se sacrificar de novo, e não vai reclamar com deus nem jogar isso na cara das "grandes torcidas" do país. Estas que se acham as fodonas da Rua de Cima só porque estão em maior número.
Faz parte da via-crucis do português. Toda massa sofre suas tragédias. Nenhuma reage à elas igual o lusitano. No fundo, eles gostam do estrago.
Não há nada mais forte que um peito rubro-verde.
