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quarta-feira, 1 de julho de 2009

FURACÃO A UM PASSO DO TÍTULO

Na Argentina, dois fatos raros acontecem nesse domingo. Uma decisão de pontos corridos via confronto direto, e a chance do Huracán se sagrar campeão nacional.

Los Quemeros chegaram na última rodada líderes. 38 pontos. Com 37, está o Velez. Na rodada final, Velez x Huracán, na cancha do vice-líder. Um jogo para a história.

O último (ou primeiro) titulo argentino do Huracán, El Globo, foi em 1973. Antes, o currículo do Furacão Hermano consistia em 4 títulos na década de 20, em escalão de competição amadora. Estes são os 5 campeonatos relevantes do pequeno clube de Buenos Aires. Seu maior rival é o San Lorenzo, que, assim como o Huracán, fez 100 anos em 2008.

Os heróis de 73: Roganti, Chabay, Buglione, Alfio Basile (ele mesmo!), Carrascosa, Brindisi, Russo, Babington (que posteriormente foi tecnico do Globo, trazendo o time de volta da Serie-B), Houseman, Avallay e Larrosa (artilheiro). O técnico? Cesar Luis Menotti. Menotti começou a carreira de treinador em 70, pelo Newell´s, e seu trabalho pelo Huracán em 73 foi consagrador. Graças a este título, conquistado com 3 rodadas de antecipação, Menotti foi para a seleção argentina, onde, em 78, ganhou a Copa do Mundo.

Após essa glória e a sequencia de semi-finalista da Libertadores de 74, o Huracán só chegou perto do caneco em 94, quando, dirigidos por Hector Cúper, o treinador preferido de Ronaldo, foram vice-campeões outra vez.

René Houseman era o craque do Huracán campeão de 73. Houseman era um driblador adorável, uma das referências de uma criança chamada Diego Armando Maradona. Foi no Huracán que Houseman jogou a maior parte da carreira, dividindo-se com a seleção do país, inclusive em Copa do Mundo (atuou em River, Colo-Colo e Independente, sempre por pouco tempo). Houseman foi uma descoberta clínica de Menotti, que o achou no obtuso Defensores de Belgrano.

Mito
Reza uma lenda que, na véspera do jogo do título de 73, Houseman não se apresentou no clube. Menotti, aflito, num momento de intuição, imaginou que Houseman estaria num dos campos de várzea de Belgrano, onde morava. E foi até lá. E encontrou Houseman. No banco de reservas. Menotti, então, teria ficado indignado, não com o ato irresponsável de seu craque, mas sim com o fato de seu principal jogador ser um mero reserva no clube de bairro, e em cima desse raciocínio Houseman tomou um dos muitos sermões que Menotti lhe aplicou no Huracán e depois na Seleção. “Como um fenômeno aceita ser reserva?”, questionava Menotti.

O novo Houseman?:
No jogo de domingo, a maior esperança do Globo chama-se Matías de Federico, 20 anos, baixinho técnico, tipicamente argentino, ele é, ao lado do também atacante Pastore, 19, uma das maiores revelações da competição. Vale lembrar que ano passado o Botafogo avançou nas conversas e quase trouxe Federico. Mas não trouxe...

* * *

torcida do huracán em video emocional
http://www.youtube.com/watch?v=PAa4--fV3uU

Vídeo com imagens do título de 73 do Huracán
http://www.youtube.com/watch?v=pit2TQ3XWkE&feature=related

Imagens da partida decisiva de 73
http://www.youtube.com/watch?v=GkXOvnqSVWY

* Um orgulho particular do Huracán: em 1945, Di Stéfano começou carreira pelo Ríver Plate. Fez apenas um jogo: contra o Huracán. E arrebentou. No ano seguinte, o craque imortal vestiu sua primeira camisa inteiramente branca na carreira: ele atuou pelo Huracán, emprestado, em 1946. 25 jogos, 10 gols, e o retorno ao Ríver em 47.


(após uma pausa , pois pausa é mais honesto em blog do que contar gotas, estamos de volta por aqui)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O DECIMO-PRIMEIRO MANDAMENTO

Quando 20 pessoas saem da Europa de férias, juntas, preocupadas apenas em jogar bola e fazer o bem, é hora de agradecer o futebol, nossa reza disfarçada cotidiana.

Por Leandro Iamin e Kadj Oman

São 16 horas do dia 25 de maio, quarta-feira de sol e chuva em São Paulo. Pela TV, todo mundo que ama futebol e não está preso no trabalho assiste à Final da Copa dos Campeões da Europa. Manchester e Barcelona fazem o duelo mais importante da região mais próspera economicamente do futebol, e é de se imaginar que todos os olhos estejam voltados para lá.

Mas um grupo de cerca de 20 pessoas, contendo ingleses e escoceses, inclusive torcedores do Manchester, está dividido: parte assiste ao jogo, parte se encontra entrando num avião, no Aeroporto de Guarulhos, partindo de volta para Bristol, Inglaterra, a oeste de Londres. Todos eles amam futebol. Eles dispensaram a Final. Eles formam um time de futebol. Eles passaram dez dias no Brasil por causa do futebol.

Estamos falando do Easton Cowboys and Cowgirls. Uma coletividade semelhante a um time de várzea brasileiro, que soma à prática do futebol ações políticas, como o discurso anti-racismo e anti-facismo. Nascidos em 1992, eles só queriam jogar bola. Mas Bristol é uma região multicultural, recebe gente de muito lugar diferente, e aí está o embrião da ideologia dessa rapaziada.

O Clube Easton, após fundado, começa a ser inclusivo naturalmente, passa a crescer e oferecer recreação para crianças, famílias, e seus integrantes levam a sério a proposta de buscar a liberdade como conceito social ligado e explicado pelo futebol. Lá na Inglaterra, passam a receber visitantes de outros lugares, de outros países, de outros continentes, em festivais de futebol e debates pensantes. Organizam inclusive Copas do Mundo Alternativas com estes visitantes - desde 1998. E passam, num segundo momento, a serem eles os visitantes.

Em 2008, um integrante do Easton Cowboys achou pela Internet um vídeo de uma banda de música composta por rockeiros-boleiros, chamada Fora de Jogo. Essa banda é composta pelas mesmas pessoas que foram o embrião de um time de futebol de várzea paulistano, chamado Autônomos, existente desde 2006. Os ingleses mandam um alô em um e-mail que demora 6 meses para ser lido. Mas que é respondido com entusiasmo. O Autônomos tem os mesmos interesses futebolístico-sociais do Easton.

Então, após viagens para Palestina, México e África do Sul, a delegação de Bristol agenda viagem para o Brasil. Aos rapazes do rubro-negro da Lapa, a incumbência é recebê-los e montar um cronograma de atividades, em campo e fora dele. Um privilégio que dará muito trabalho...


Com que grana, cara-pálida?

É realmente insólito que um grupo viaje tão longe para jogar bola. “Desocupados ou ricos”, pode-se pensar. Na verdade, os Cowboys usam dinheiro do próprio bolso, mas conseguem renda através de um bar cujo dono possui os mesmos princípios, e vale sublinhar que princípio, nesse caso, não é ser “punk”, ou ser “anarquista”, ou ser “de esquerda”. Falamos do princípio da fraternidade, do anti-racismo de fato, da real luta por trás de tudo, chamada guerra de classes. Com shows de música, doações, vendas de camisas e outros lucros pequenos, eles conseguem resolver a parte financeira. Depois disso, tudo que precisam fazer é tirar férias ao mesmo tempo.

A trupe marrom-e-branca (as cores do alemão St. Pauli) desembarcou com 17 homens e duas mulheres. Recebidos pelo Autônomos, foram direto ao campo de jogo, num forte amistoso vencido pelos brasileiros por 4 a 2. No mesmo final de semana, participaram de um evento anarquista com muito futsal. Também foram torcedores ilustres nas partidas do Autônomos, e também das Autônomas, o time feminino. Viajaram ao Rio de Janeiro, e fizeram amistoso na areia de Copacabana (com direito a um surreal desafio extra contra integrantes da Gaviões da Fiel, que lá estavam para Fluminense x Corinthians).

Conheceram o Maracanã nesse mesmo Fluminense x Corinthians, e também o Bruno José Daniel em dia de Santo André x Flamengo. Enfrentaram outros times de várzea, as meninas fizeram amistoso feminino, futebol, futebol, futebol, futebol. E política. Todos eles participaram, também, de debates em universidades e de um programa de rádio, além de conhecerem mais de perto algumas das realidades do Brasil pobre.

Muitas bandeiras em uma só

Steve não entra em campo. Tem um cabelo punk, um aspecto nada vivaz, fala de forma torta, mas é um exemplo enorme da capacidade de integração do Easton. Ele morou 5 anos na rua, por resultado de nunca se encontrar socialmente em seu meio. Mas no futebol, ou melhor, no futebol que o Easton lhe apresentou, ele encontrou seus valores em ação, isso é, um grupo plural e interessado nas idéias de igualdade, sem hipocrisias.

E quando lembramos da pluralidade do time e de Charlie, o descendente de filipino que é o craque do time, aparece Kaz e nos engole. Muito alto, voz de locutor, um senhor, um doce de pessoa. Descendente de iraquiano. Emotivo, chorou com o Cristo Redentor, contemplou por minutos o mar, e explica que, numa vida intranquila que ele tem, o Easton é o que lhe faz ter 18 anos de novo.

Não existem histórias muito diferentes quando o assunto é explicar o amor pelo futebol. O amor desse pessoal, no entanto, encontra eco naquilo que nosso esporte querido tem de mais generoso, e que, infelizmente, Robinho e Cristiano Ronaldo jamais ouviram falar. Nas partidas do Easton, abriu-se uma faixa: "Unidos contra o racismo". Não se quer salvar o mundo no Easton. É uma faixa, mas é mais, é um gesto, uma postura. É simples como tem que ser.

Parte do dinheiro trazido foi apenas para se fazer o bem, para se investir em algo social. É o futebol como competição em campo para representar a oposição ao mundo que estimula a competição de gêneros, raças, classes sociais, países.

Jock, o treinador do Easton, é escocês, tem os joelhos destroçados, e foi embora com recordações de Palmeiras e de Corinthians na bagagem. Jack Daniels, zagueiro e capitão de nome sugestivo, também. Lally, a talentosa menina que aprendeu a jogar para poder brincar com seus irmãos na infância, vestiu uma camisa do São José. E Paulius, o lituano do FC Vova, time nos mesmos moldes do Easton localizado em Vilnius, capital da Lituânia, e que veio ao Brasil "emprestado" aos Cowboys, levou consigo uma camisa do Santo André.

Ou melhor, Paulius não foi-se assim, tão convicto. Figuraça, o rapaz agregou-se à delegação inglesa e veio mais para ver o cenário punk, por sua banda de música. Mas, agora, só pensa em voltar ao Brasil: tudo culpa de uma garota bonita que o tirou da rota. O único que durante toda a viagem cravou seco: sou palmeirense. De novo, culpa da garota.

See you in England

O futebol leva valores à sociedade, sempre levou. O futebol que constrói arenas na Europa por compulsão pode ser tão perigoso quanto a especulação imobiliária que mata um pouco a cada ano o futebol de várzea, nosso capital intangível. O futebol é uma moldura, um exemplo, uma proposta lúdica de representação política, das coisas que devemos fazer e das posturas que devemos ter.

Quando alguém diz que futebol é só uma atividade opulenta, para doentes verem caras "correndo atrás de uma bola", consegue, ainda que sendo tão raso, achar um ou outro argumento, por exemplo, numa Final de Copa dos Campeões, mesmo com sua campanha (vaga) sobre fair play e sua cruzada (inconsistente) contra o racismo.

Mas aí temos o privilégio de ver duas dúzias de pessoas gastando suas férias e suas economias para conhecer nossa mais simples realidade. Não encheram o saco de ninguém com nenhum “papo-cabeça” sobre ideologia. Não era esse o caso. O Easton é a postura do Easton. Sacrifício, fraternidade, boa-vontade, bondade. E amor por futebol, nosso esporte querido, que precisa ser lembrado em um anexo de nossas orações diárias.

Os cowboys ingleses aqui estiveram para nos ajudar a estabelecer um décimo-primeiro mandamento: não macular o futebol nem subestimar sua essência e seu poder inclusivo. Homens, mulheres, crianças, senhores, senhoras e uma bola.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

São Paulo: Rebaixado?

Esta página da Folha de S. Paulo saiu ontem no site da Época e, claro, trouxe de volta à tona a imortal discussão sobre o rebaixamento do São Paulo.


Justo quando começa o Campeonato Paulista, somos exercitados a questionar as razões de ele, hoje, não ser o que já foi um dia. Um dos motivos é a credibilidade, dividindo a lista com alguns outros fatores que desabonam a prática, mas não tiram o romantismo e a importância biográfica da competição.

A matéria que saiu no site da Época é forte, contundente e desafiador, e está aqui.

A Folha de S. Paulo desmentiu recentemente o Guia da FPF. O Guia apontava o SPFC como rebaixado em 1990, e a Folha não concordou. A FPF, então, mudou de opinião, concordou com a Folha, desmentiu o seu próprio Guia, e colocou a culpa toda no historiador do Guia.

Acontece que a própria Folha, na ocasião, como mostra a foto, cravava o São paulo como rebaixado.

O historiador, que ficou como o mordomo da história, acusou o livro A História do Campeonato Paulista, escrito em 97 por Valmir Storti e André Fontenelle, este segundo, veja que mundo pequeno, o autor desta mesmíssima matéria da Época.

Mas, pegando este livro em mãos e indo mais adiante, vemos que a questão do regulamento não é mais grave que o regulamento da fase final da competição. Segue abaixo o texto do referido livro:

"Pela primeira vez, um time rebaixado à segunda divisão no ano anterior era campeão da primeira. (...)Tudo graças a uma "virada de mesa", que criou um novo tipo de regulamento no Paulista, apenas para acomodar o São Paualo. Assim, dois times da série fraca disputariam as finais com seis times da série forte. Beneficiado pelo regulamento (já que teria pela frente adversários muito mais fracos) (...), o São Paulo massacrou a concorrência.

Absurdo ainda maior cometeu o regulamento na segunda fase. São Paulo e Palmeiras terminaram empatados em pontos ganhos, e quem passou à final foi o São Paulo, por ter feito mais pontos na primeira fase. Não se levou em conta que haviam sido pontos contra equipes da segunda divisão, enquanto o Palmeiras enfrentara as melhores equipes do estado."


Na ocasião, o São Paulo era um clube 3-0-0. O Paulistão era maior, mais longo e mais prestigiado que hoje. É inadmissível, em qualquer época, um regulamento bizarro como esse, do começo ao fim.

Muita água passou, a discussão volta, mas um grito unânime há de ser ouvido: Federação Paulista de Futebol, QUE LAMBANÇA!

E não falo só do Campeonato de 1990. É ridícula a forma com que a FPF tratou os profissionais que pesquisaram e fizeram o Guia. Não se muda de lado assim tão facilmente. Um urro crítico da Folha, e a FPF optou por jogar a bomba no colo de quem fez, e muito bem feita, a pesquisa.

Isso não se chama postura linear.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Você sabia?

Do blog Futepoca
Ghigghia tirou duas vezes o título de 50 do Brasil

Pesquisando para fazer o post em homenagem à morte de Friaça, descobri uma informação que, com certeza, poucos aficcionados por futebol conhecem. A campanha do Brasil na Copa de 1950 foi tão espetacular (até a decisão, 5 jogos, 4 vitórias, 1 empate, 21 gols pró e só 4 contra), com goleadas de 7 a 1 sobre a Suécia e 6 a 1 sobre a Espanha, que todos sabem que o time só precisava de um empate com o Uruguai para ficar com o título. Mas um fato esquecido - e absolutamente fantástico - é que o trágico jogo de 16 de julho, o "Maracanazo" que nos tirou o título, poderia nem ter sido disputado.

Nossa seleção poderia ter levantado o troféu no dia 13, quando ensacolou os espanhóis com a torcida cantando "Touradas de Madri", do compositor João de Barro, no Maracanã. Para isso, bastava que Suécia e Uruguai empatassem no Pacaembu, em São Paulo. A partida, que foi disputada simultaneamente à do Rio, ficou em 2 a 2 até os 40 minutos do segundo tempo. Mais 5 minutinhos e o Brasil seria campeão antecipado. Mas eis que, nesse momento, o camisa 7 Alcides Ghigghia disparou na lateral direita, invadiu a área e fez 3 a 2, levando o Uruguai à final.

E o mais curioso é que seu gol foi praticamente idêntico ao que faria na decisão, aos 34 minutos da etapa final (fotos acima), selando a vitória de nossos adversários. Dizem que, naquele momento, o idealizador da Copa do Mundo, Jules Rimet, já havia saído de seu camarote, no Maracanã, para atravessar o túnel no subsolo a tempo de entregar a taça para os brasileiros assim que o juiz desse o apito final. Quando partiu, o clima era de festa, com fogos e gritos, pois o placar de 1 a 1 nos garantia o título. Só que, ao subir para o gramado, Rimet não entendeu nada: os uruguaios pulavam e 200 mil brasileiros observavam em silêncio. Ele não viu o gol de Ghigghia.

Pois esse episódio esquecido, de que o Brasil já poderia ter sido campeão contra a Espanha, evitando a partida contra o Uruguai, reforça a devida importância do camisa 7 naquela conquista. Por muito tempo, o falecido capitão Obdulio Varela (à direita, levantando Ghigghia após a vitória) foi apontado como principal figura da decisão, pois teria empurrado sua seleção à virada com berros e pressão nos companheiros. Mas os gols decisivos contra a Suécia e Brasil apontam mesmo Ghigghia como o grande herói uruguaio. O ex-jogador tem hoje 82 anos e vive em Montevidéu. Em 2006, o governo de seu país lançou um selo comemorativo com seu rosto e a frase "Ghigghia nos hizo llorar" ("Ghigghia nos fez chorar"). É, os brasileiros também choraram...

Naquele mesmo ano, o uruguaio recebeu o prêmio "Golden Foot", um molde de ouro de seu pé direito, em cerimônia celebrada em Monte Carlo, na França. Para construir uma casa para sua atual esposa, que tem 35 anos, Ghiggia leiloou esse troféu em julho do ano passado. Quem arrematou foi o Banco de la República Oriental del Uruguay, único participante do leilão, por cerca de 510 mil pesos (R$ 41 mil). "Por sorte não tenho apertos econômicos, mas ter um troféu tão valioso em minha casa é perigoso e quero deixar algo para a minha esposa, que é muito jovem", afirmou Ghiggia, na ocasião. De fato, um craque dentro e fora do campo.

Por Marcão
link: http://www.futepoca.com.br/2009/01/ghigghia-tirou-duas-vezes-o-ttulo-de-50.html#links

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Um clube: Hoffenhein

Hoffenhein e o apelo popular na Alemanha
Time de Hoffenheim, 3.300 habitantes, ocupa o segundo lugar em sua estréia na 1ª divisão alemã

Alain Constant
Em Hoffenheim (Alemanha)

O lugar apresenta um aglomerado de sólidas casas com fachadas de cores vivas, um bar, três padarias, uma salsicharia, a pizzaria Mira-Lago e ainda, empoleirado no topo do morro, um pequeno estádio. Seja bem-vindo a Hoffenheim, uma aldeia de pouco menos de 3.300 habitantes situada no sudoeste da Alemanha, no coração do Estado de Baden-Wurtemberg.

Desde o mês de agosto, este minúsculo vilarejo sem qualquer atrativo particular e que não oferece nenhuma vida social palpitante ocupa ainda assim as manchetes dos veículos de comunicação alemães. A razão disso é simples: o clube local do TSG Hoffenheim 1899 que, de maneira inesperada, qualificou-se neste ano para disputar a Bundesliga, representa a menor aglomeração da história a ter um time local competindo no célebre campeonato da primeira divisão alemã. Além disso, desde domingo, 21 de setembro, depois da quinta rodada da competição, ele ocupa o 2º lugar na classificação, após ter triunfado sobre o Dortmund (4 a 1).

Situado a uma boa distância geográfica dos gigantes de Munique, Hamburgo ou Berlim, e sem apresentar qualquer passado futebolístico prestigioso, o "clube dos labregos", conforme o apelido que lhe atribuíram com desdém alguns torcedores do poderoso vizinho Stuttgart, está vivenciando uma aventura bastante incomum.

Para ser totalmente imparcial, vale acrescentar que o clube de Hoffenheim não representa apenas a minúscula aldeia do mesmo nome, como também a cidade vizinha de Sinsheim e seus 50 mil habitantes. Uma pequena estrada conduz de uma aglomeração à outra, enquanto a sede social do clube, de uma modéstia rara, está situada num pequeno edifício ao lado de um posto de gasolina, exatamente na saída de Hoffenheim.

Ao passar novamente pela auto-estrada A6, na saída de Sinsheim, um espetáculo surpreendente aguarda o motorista visitante. Num gigantesco canteiro de obras estão trabalhando dezenas de operários em meio a uma nuvem de poeira levantada pelo vai-e-vem de diversos caminhões. Já bastante avançadas, as obras de um esplêndido estádio de 30 mil lugares deverão ser concluídas até janeiro.

Na espera de se instalarem nesta pequena maravilha, os jogadores do Hoffenheim vêm disputando suas primeiras partidas da Bundesliga "em casa" no Carl-Benz Stadion de Mannheim, situado a cerca de cinqüenta quilômetros do vilarejo. "Nós concluímos um acordo com a companhia ferroviária estatal nacional.

Todos os torcedores que forem detentores de um ingresso para as partidas em domicílio podem viajar gratuitamente a bordo dos trens para irem a Mannheim e retornarem a Sinsheim nos dias de jogo", sublinha Markus Sieger, o diretor da comunicação do clube.

Se o clube de Hoffenheim, que ainda disputava o campeonato da quinta divisão oito anos atrás, está atualmente entre os clubes da elite, é essencialmente graças à fidelidade e à generosidade de um homem que, nos últimos 18 anos vem acompanhando o clube do qual é torcedor desde a sua infância. Um bilionário que acumulou sua fortuna dirigindo a grande companhia de informática SAP, Dietmar Hopp coloca seu dinheiro na roda sempre quando isso é necessário.

"Quando o clube subiu para a terceira divisão, eu tinha estipulado um prazo de cinco anos para que ele se classifique para a Bundesliga. Mas esta meta foi alcançada em apenas dois anos", comentou o "cartola" recentemente, em entrevista ao jornal "Frankfurter Rundschau". Os observadores avaliam em 150 milhões de euros (pouco mais de R$ 400 milhões) as despesas que este mecenas efetuou nos últimos 18 anos em benefício do seu clube adorado. Só a construção do futuro estádio está lhe custando 50 milhões de euros (cerca de R$ 135 milhões), mas nada é bonito ou caro demais para os azuis e brancos do Hoffenheim 1899.

Um verdadeiro clube popular

"Diferentemente do que afirmam os seus detratores, que consideram que este clube nunca foi objeto de qualquer paixão sincera, o Hoffenheim tornou-se um verdadeiro clube popular", sublinha um jornalista alemão. Nesta temporada, o clube mobilizou 14 mil pessoas que compraram sua cadeira cativa, e as partidas em Mannheim têm sido realizadas diante de 26 mil espectadores em média. Todas as cidades e as aldeias deste canto do Baden-Wurtemberg torcem por este pequeno clube, que agora já está disputando de igual para igual com os "times grandes".

O dinheiro de Dietmar Hopp não permitiu apenas contratar os serviços de jovens jogadores promissores, como também os de um treinador de qualidade, Ralf Rangnick, apelidado de o "Professor". Um antigo técnico dos times do Stuttgart e do Schalke 04, ele vem operando verdadeiros milagres desde a sua chegada, no verão de 2006. "A nossa política consiste em confiar em jovens jogadores", diz o técnico. Não é por acaso se o seu time, que apresenta uma média de idade de 24 anos, é o mais jovem de toda a Bundesliga.

O dinheiro de Hopp também permitiu ao clube adquirir estruturas próprias para favorecerem um bom desempenho. Os times de jovens atletas podem contar com boas condições de treinamento em Zuzenhausen, uma localidade situada a três quilômetros de Hoffenheim. Além disso, pela primeira vez na sua história, o clube acaba de conquistar o título de campeão da Alemanha na categoria sub-17.

Enquanto muitos observadores costumavam prever um calvário para os times desconhecidos promovidos quando estes chegassem à Bundesliga, eles precisam agora reavaliar seu julgamento. Contando com um grupo de jovens oriundos não só da Alemanha, como também do Brasil, da Nigéria, do Senegal (no caso, Demba Ba, formado na França, em Montrouge, e que atuou no time de Rouen) ou da Bósnia (Vedad Isibesic, um antigo jogador do Paris-Saint-Germain), o Hoffenheim está agüentando o tranco.

A manutenção na primeira divisão é evidentemente o principal objetivo para este ano, até que se apresentem novas perspectivas, mais ambiciosas. Mas, com o dinheiro de Dietmar Hopp, tudo é possível.


Tradução: Jean-Yves de Neufville

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Sobre Torcidas Organizadas

Aqui, uma dica. Se tu te interessas pelo tema "Torcidas Organizadas", mas faz mais do que passar tinta maniqueísta na questão, e busca compreender o fenômeno, leia esta entrevista com o professor de História Social do Futebol na UFRJ, Bernardo Buarque, no sítio da Revista de História da Biblioteca Nacional.

http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1790

Fica o link e a indicação.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Estudiantes x Palmeiras. em 2005?


HISTÓRICO E OBTUSO
Estudiantes e Palmeiras se enfrentaram em 2005, mas no Brasil, ninguém ficou sabendo. Procuramos os motivos para o silêncio que esconde uma grande história alviverde


Por Leandro Iamin e Gabriel Brito

4 de agosto de 2005. No Estádio Jorge Luis Hirsch, em La Plata, um volumoso e entusiasmado público comemora a marcação de um penalty a favor do Estudiantes. Pode ser o empate de uma partida quente, até então com um gol solitário no primeiro tempo. Na linha de fundo, Deola, goleiro do oponente, o Palmeiras, está acuado na frente de uma arquibancada irresponsavelmente próxima ao campo, e diante de Carrusca, com a camisa 10 e pronto para a cobrança na seca e fria noite platense.

O clube brasileiro dirigido por Wilson Macarrão está sob xeque-mate, e, com um grupo jovem, estrelado por atletas como Francis e Thiago Gomes, pode não conseguir reagir a tal revés. Estamos no segundo tempo e buscar um desempate pode ser demasiado perigoso.

Carrusca bate, balança as redes, jogo empatado. Por um segundo. O árbitro Horácio Elizondo apita invasão de campo, sem dar ouvido aos protestos. Ele foi rigoroso. Rigorosidade que só se pede aos árbitros nos grandes jogos. Carrusca de novo. Deola solitário e espremido entre energias rojiblancas. Agora vai.

Carrusca cobra, Deola acerta o canto e defende, e o Palmeiras consegue manter-se na dianteira, num 1x0 bastante truncado, e, de certo, heróico, posto que o clube argentino se aprontava para iniciar o Campeonato Argentino Apertura, no qual foi muito bem, inclusive com rescaldos de sucesso na Libertadores do ano seguinte, quando, mantendo a base, foi eliminado pelo São Paulo, no drama lotérico dos penaltys.

Deola, quando defendeu a penalidade de Carrusca, cumpriu, ainda que sem tal pretensão, uma significativa missão a favor do alviverde, a de, com algum atraso e tomada as devidas proporções, aplicar a revanche pela Final da Libertadores de 1968, feita entre os dois, mas vencida pelo time de Mar del Plata, com Verón e Fucceneco superando os insuperáveis Ademir da Guia e Dudu, numa finalíssima disputada em Montevidéu.

Mas alí não era Libertadores. Nem Sul-americana, nem Mercosul, nem Conmebol. Era uma data festiva, onde o Estudiantes, comemorando seu centenário, convidou as camisas verdes do país vizinho para um flashback, chamou um dos seus maiores adversários na vida para apagar sua centenária vela em grande estilo: testando a própria força, se propondo a competir em alto nível mesmo quando o dia podia ser de festa diante de um adversário meramente figurante.

É como uma partida de "entregas de faixas". Não se pode perder, pois que senão, fica aquela manchinha, aquele incômodo, o chopp fica aguado, a valsa toca fora de tom, a sinfonia parece ficar inacabada. Por isso, a atmosfera era eruptiva. Um jogo insubstituível, e com momentos de violência, posto que houve uma troca de empurrões em alta altura da cronometragem, e 3 jogadores expulsos. Deu Palmeiras, para satisfação dos garotos e um discreto deleite de diretores de velha-guarda. Los Pinchas, derrotados, foram ainda assim ovacionados pelo público, e com justiça, pois foram honestos ao escolher um clube grande para medir forças em campo, e fidalgos ao tratarem os brasileiros com o máximo de atenção e respeito, do lado de fora do gramado.


Gol do Palmeiras?

No dia seguinte ao jogo, passeando por Buenos Aires logo após o desembarque no país, Gabriel Brito olha uma TV numa lanchonete, e, curioso, observa os lances. Não adianta a paisagem de um país novo: se há uma TV com futebol, é para lá que os olhos juvenis se viram. De pé, Gabriel assiste a Bruninho, lateral direito, tramar jogada pelo meio e passar para Francis, que chuta com violência a gol, contando com um desvio na zaga que encobre o goleiro e termina em gol. Gol do... Palmeiras? A legenda intrigou: "Estudiantes 0x1 Palmeiras". Um dia antes ele estava no Brasil, e podia jurar que o Palmeiras não tinha ido para a Argentina coisa nenhuma. Muito menos em Agosto, no meio do Brasileirão. Rápida apuração, e era aquilo mesmo. Tratava-se do Palmeiras, só faltava entender em quais condições.

Em São Paulo, os jornais se dedicaram a falar sobre o choque-rei da noite. Leandro Iamin devora um dos diários, para ler tudo sobre o Palmeiras e São Paulo de logo mais. O tricolor campeão da Libertadores, na crista da onda, com Amoroso e Lugano, e o Palmeiras analisado com ceticismo, apostando em Gioino e Marcinho. Nos sites e programas de TV, um bom destaque é dado para Emerson Leão, que era técnico do São Paulo, saiu pelos fundos e agora treinava o Verdão.

Naquele dia, no anterior e no posterior, o máximo que alguém conseguiu ver nos periódicos nacionais foi uma ou outra nota, sem foto ou manchete, informando secamente que o Palmeiras-B foi à argentina para participar do Centenário do Estudiantes. Nada pautado com pompa, apenas um jogo, nada mais.

Mas... Palmeiras-B? Os argentinos sabiam disso? “Palmeiras llegó a La Plata con mayoría de juveniles”, afirmou o Diário Hoy, de La Plata. Por lá, a derrota foi para o bom e velho Palmeiras, ainda que com tal ressalva, e Gabriel Brito testemunhou pessoalmente. Já em São Paulo, falou-se todo o possível a respeito de um saboroso 3x3 entre o Verdão e seu eterno inimigo, quando estes venciam por 3x0, e cederam o empate no fim do jogo, num golaço improvável de Warley. Palmeiras-B na Argentina? Por aqui, foi como se o time juvenil tivesse visitado o Qatar em busca de amistosos insossos: passou batido.


Cadê o jogo no jornal?

Na vida de um grande garoto passam muitos trabalhos, muitos amigos, muitas namoradas, pretendentes, experiências, e nem sempre dá tempo de dar a atenção justa a todas estas coisas. Na vida de um grande clube senhor, o mesmo acontece. E o que a imprensa noticia é uma espécie de reflexo disso. Para o factual imediato que alimenta e nina o jornal diário, realmente não parece razoável ir à Argentina ver um amistoso, quando se tem um grande clássico do lado da redação. Ainda assim, tratou-se de um encontro com a história, que o Palmeiras, com "B" ou sem "B", teve a chance de ter. E isso não é pouco. Não nos encontramos com nossa própria história assim tão facilmente.

As últimas grandes matérias feitas por brasileiros em solo argentino foram 3 meses antes desse jogo, e por motivo bem menos nobre do que o flashback do centenário: Leandro Desábato, zagueiro do Quilmes que hoje, por sinal, defende o Estudiantes, estava numa grande encrenca por conta de um lamentável episódio envolvendo racismo e o jogador Grafite, então no São Paulo.

Um caso que foi grave, mas, sobretudo, só se tornou tão mais sensacional porque foi alvo de uma cobertura demasiadamente carregada de adjetivos e exclamações por parte dos brasileiros. Não precisava colocar tantas questões filosóficas, políticas e sociais naquele caso. E pudemos pensar que esse processo de um fato se tornar obscuro ou vir à tona com força e categoria, passa por um caminho um pouco lotérico, um tanto imponderável.

Como se fossem penaltys a se cobrar, e a se defender.

Pesquisando na mídia argentina, encontramos relatos que reforçam as experiências in loco que Gabriel Brito tinha na memória. Assim escreveu o Clarín.

“Alrededor de 20.000 personas colmaron el estadio de 1 y 57 para darle colorido y emoción al festejo de los cien años de Estudiantes de La Plata. La ceremonia incluyó premios para varias glorias del club y un partido amistoso (que de amistoso sólo tuvo el nombre) ante el Palmeiras de Brasil.

El partido se jugó tan en serio que Horacio Elizondo, quien dirigió el encuentro, debió expulsar a tres jugadores (Pavone (E), Ortiz (E) y Belem) por juego brusco. El encuentro finalizó 1-0 para el conjunto brasileño y el gol lo marcó Everton a los 25 de la primera etapa.

Sin embargo, la fiesta se vivió antes del partido. Numerosas banderas y bombas de humo de color rojo le dieron marco al ingreso a la cancha de Juan Ramón Verón, el símbolo de aquel equipo conducido tácticamente por Osvaldo Zubeldía que marcó un hito en la historia del fútbol argentino”

O texto do Clarín aponta o zagueiro Belém como expulso pelo Palmeiras. Mas o Diario Hoy de La Plata, em contrapartida, anota o cartão vermelho para Wendel. Com a palavra, o próprio Wendel: “Fui eu mesmo o expulso, mas não foi direto não, foi por dois cartões amarelos”. O Diario Hoy aponta para uma expulsão direta. “Não lembro de lances violentos ou desleais no jogo”, trepida a memória de Wendel, que entrou no segundo tempo e atuou apenas 14 minutos, até ser expulso. Vejamos o que diz o relato da publicação Diário Hoy, de La Plata.


“Estudiantes no estuvo futbolisticamente a la altura de la circunstancia. El equipo albirrojo adoleció de juego y perdió ante el Palmeiras, en el partido por los festejos del centenario. Frio y poco fútbol, un cóctel poco atractivo para la gran cantidad de publico que se acercó a presenciar el primer amistoso del equipo de Mostaza.

(...) El once paulista manejó mejor la pelota, especialmente en el primer tiempo, a través de las proyecciones de Bruninho e Francis. Se notó la diferencia entre un equipo con rodaje y en plena competencia y otro que todavía está atado y saliendo de la pretemporada (...) Quizás el dato más importante haya sido que Merlo probó con línea de tres en defesa ante la ausencia del Tucumano. No funcionó del todo bien, porque se notó que el sistema no está trabajado.

(...) Podría haber llegado al empate a través de um penal que ejecutó Carrusca. Primeiro lo convirtió, pero Elizondo lo anuló por invasión de campo. en el segundo intento se lo atajó el arquero paulista (...) El juego se fue degenerando con las expulsiones de Ortiz y Pavone, y aunque posteriormente Palmeiras quedó com diez.”


Aos garotos, a exposição

Wilson escalou um razoável time. Deola, Bruninho, Junior, Vitor Hugo e Everton; Thiago Gomes, Francis, Zé Forte e Marquinho; João Paulo e Tom. Um time em que poucos tiveram efetiva chance no Palmeiras, mas muitos se profissionalizaram com alguma relevância.

Para essa garotada, a conexão desse jogo com a Final de 1968 era muito distante. Wendel se recorda. "Alguns diretores que foram conosco na viagem nos contaram do passado do jogo e ficaram felizes quando ganhamos". É natural que um jogo internacional, aos olhos de um garoto, seja valioso, e por muitos motivos. A vida dele está começando, o futebol está apontando o futuro para ele. E ele é que não vai ficar apegado aos anos do passado distante. A realidade mostra que o capitão da Seleção Brasileira nada sabe sobre a Final da Copa de 58, e trata-se de uma falha cultural consumada na comunidade dos boleiros. Porque um atleta do Palmeiras-B se emocionaria com uma Final de 1968?

Quem viveu, se emocionou. Chico Primo, conselheiro que foi chefe da delegação na viagem à Argentina, conta com carinho da ocasião, bem como da trajetória verde como um todo na Argentina. “Foi lindo, nosso time ganhar foi belo porque o argentino respeita muito a gente, sabe por quê? É que uma vez o Di Stéfano e o time combinado de River Plate e Boca Juniors usou nosso uniforme (foto acima), e isso é poesia para os ouvidos deles. Não tem como não ficar feliz com uma vitória daquela.”

Chico se referiu a um jogo no ano de 1948, em que o Palmeiras cedeu os uniformes para um combinado de River Plate e Boca Juniors, quando se marcou uma partida amistosa dos dois contra a Seleção Paulista. Jogadores de um não vestiriam a camisa do outro, e a solução foi usar a camisa verde.

Esse tipo de saudosismo saboroso que Chico Primo destila em altas doses atinge, de um jeito ou outro, a cabeça da garotada, mas sequer divide a hierarquia de prioridades deles. "A gente sabia da responsabilidade e via a importância daquilo, mas o jogo era importante para nós porque buscávamos ser vistos pelos olheiros e ser bem falados pelos diretores. Estávamos no B e tínhamos que mostrar serviço, além do prêmio pela vitória, que era bom", revela Wendel, que, mesmo desastrado na Argentina, subiu ao time principal, poucas estações depois. Segundo Chico Primo, o clube recebeu 20 mil dólares pela partida, e parte disso foi dada aos vencedores da contenda.

A História oficial

O jogo passou pelo tempo de forma discreta, escondido, à sombra. O departamento de história do Palmeiras, inclusive, não considera o jogo como oficial, já que foi feito pelo Palmeiras-B, ainda que, pelos registros do time argentino, não haja tal distinção. Compreensível e coerente registro, embora, sentimentalmente, seja um equívoco. Este jogo foi sim feito pelo Palmeiras, com todas as letras maiúsculas.

Chico Primo, o sagaz representante oficial da direção do Palmeiras na viagem,
É um compulsivo e quase folclórico contador de histórias. No entanto, sua riqueza de detalhes e suas participações quase onipresentes nos acontecimentos que relata nos pediram algumas verificações na história oficial da viagem.

Ele conta que na saída do Jorge Luis Hirsch, conhecido como "1 y 57" (nome da Rua e número do estádio albirrojo), algo inusitado deu aos brasileiros a dimensão daquele evento para La Plata. Torcedores do rival Gimnasia simplesmente apareceram na festa em que obviamente não foram chamados, e quiseram azedar o bolo de Los Pinchas. As duas barras inimigas respingaram violência até na jovem e inocente delegação palmeirense, que sofreu para deixar a cancha. "Sobrou pra mim que tomei uma varada de bambu na cabeça, saindo do estádio em uma praça. Aquela confusão pegou todo mundo desprevenido", conta Chico.

Relatos de torcedores afirmam que cerca de 6 mil torcedores ficaram em frente ao estádio, após o jogo, esperando dar meia-noite para festejar de novo. Não encontramos registros acerca deste confronto com a torcida rival, mas, se Chico conta, algo aconteceu, mesmo que com os descontos dos deslizes de memória. Primo nos contou, por exemplo, que o gol da vitória foi marcado por Everton, e que Zé Forte não tinha viajado com a delegação (quando foi perguntado se procedia a informação de que o atleta havia sido desligado do Palmeiras nessa viagem, por chegar embriagado ao hotel). E, na verdade, o gol foi de Francis, e Zé Forte não só estava presente, como foi titular da equipe.

Quanto à embriaguez de Zé Forte, nada se comprovou, e pouco se insistiu na apuração. Desimportâncias.

Naturalmente que, no final das contas, Estudiantes e Palmeiras disputaram um amistoso. Não foi a coisa mais importante da vida do Palmeiras. Não foi o maior pesadelo dos 100 anos do Estudiantes. Na seqüência, o alviverde fez uma rigorosa serie de partidas pelo Brasileirão que consagrou uma volumosa reação, culminando na classificação à Libertadores. Los Pinchas conseguiram honrar o ano dourado com um quarto lugar no Campeonato Argentino.

O tempo passou, como sempre, rápido, e no ano seguinte, mal começado, eles já estavam na Libertadores. E a Terra foi girando, jogos foram se sobrepondo. Deola foi emprestado ao Guarani, Pavone foi um dos grandes goleadores no Clausura de 2006. O Palmeiras voltou à Argentina, foi à Rosário, empatou com o Central, e o Estudiantes veio até Goiás eliminar o time candango no Serra Dourada. Não consta que se encontraram em nenhuma viagem.

Não deu tempo. Ninguém teve tempo para sentar e desfrutar desse interessante capítulo da história verde. Se alguém teve tempo, certamente não teve o jornal, bonitinho, ilustrado, em português, para conferir. Ao menos, agora, teremos as letras deste texto.


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Fotos:
-Jogo, ficha técnica e torcida pincharrata - Jornal Diario Hoy
-Combinado River/Boca - Depto de História do Palmeiras
-foto do time do Palmeiras -
www.palestrinos.com
-Distintivos - www.distintivos.com.br